Uelinton Farias Alves, Jornal do Brasil
RIO - O ponto de partida de Mandingas da mulata velha na Cidade Nova, romance de estreia do conhecido escritor e compositor Nei Lopes, é a morte de uma velha baiana da Praça Onze, Honorata Sabina da Cruz. Até aí nada de anormal? Nem tanto. Diga-se de passagem, Nei Lopes, tão afamado sambista, nos últimos tempos, para alegria geral, resolveu literalmente por a mão à pena , produzindo uma preciosa biblioteca de obras primas, verdadeiras relíquias no campo da pesquisa histórica e da literatura, a exemplo da sua erudita Enciclopédia brasileira da diáspora africana e das pérolas incontestáveis que são os 20 contos e uns trocados, sua primeira incursão no campo da ficção.
Na sua mais recente experiência literária, que é o Mandingas da mulata velha na Cidade Nova, o Nei Lopes que conhecemos dos grandes sucessos do mundo do samba e dos dicionários (já tem dois publicados, e ultima agora um outro dedicado aos suburbanos ilustres) se apresenta numa faceta completamente desconhecida do seu público, urdindo uma história que, além de prender a atenção do principio ao fim, está repleta de referências a personagens reais, que transitam entre a ficção e a realidade, levando-nos, como mero leitor, a um passeio sem igual pelas tradições de uma cidade urbanizada, que passou por processos decididos na constituição de sua vida, que foi a abolição da escravatura e a queda da monarquia.
Tendo como foco a morte de Honorata, ou Tia Amina, como também passa a ser conhecida, no início do século 20, Nei Lopes transforma o atrapalhado repórter Costinha, o Diga-Mais, da Tribuna do Rio, no apresentador contumaz de um Rio de Janeiro africanizado, cheio de figuras dos cultos religiosos e da baianidade, como a lendária Tia Ciata e o excêntrico príncipe Dom Oba, um negro alto que se julgava herdeiro de um trono (e o imperador Pedro II a reconhê-lo), ou mesmo localidades como a Prainha, a Pedra do Sal e a pequena África, nos arredores da Rua Barão de São Félix, reduto de muçulmanos, entre eles, Henrique Assumano Mina do Brasil, ou ainda ícones do abolicionismo como José do Patrocínio e André Rebouças, e, afinal, igrejas como a de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, rodas de samba, jogos de capoeira, batucadas, malandragem e boemia.
Nei Lopes faz de todas essas referências o enredo de uma narrativa linear que alimenta a alma de prazer e o espírito de sabedoria. Através da história da Tia Amina, baiana da Praça Onze (relevada num misterioso manuscrito), são contadas diversas mini-histórias sobre a cidade e sua gente. O escritor carioca aproveita para dá uma aula sobre a constituição dos blocos carnavalescos, cordões e ranchos, como o tradicional Ameno Resedá, e sua relação com o poder; fala da linguagem usada pelos negros naquele período, a qual se convencionou chamar língua de preto (ou ocololô de negro mina ), suas tradições e cultura, pondo à mostra o seu lado de lexicógrafo e etimologista. Quando se refere aos movimentos revolucionários, como a Revolta dos Malês, ocorrida em 1835, na Bahia (a Mulata Velha), o faz numa digressão genial, colocando panos quentes a favor dos negros revoltosos, que passam a ser, no fundo, o entrecho para historiar de ponta a cabeça o romance.
É a partir daí que a obra ganha contornos de originalidade, ao mesmo tempo em que margeia pelos lados do romance histórico. Ao misturar em suas páginas realidade e ficção, tipos reais e inventados, Nei Lopes vai descarregar no leitor uma adrenalina de interesse, vivo, presente, que cresce na medida em que este vencer cada capítulo, através do qual vai esbarrando em personagens de carne e osso, todos negros, é bom que se diga, como o filólogo e dialectólogo Antenor Nascente (1886-1972). É um trabalho de natureza hercúlea, com certeza, mas próprio de quem conhece bem o ofício, e o faz com erudição e familiaridade.
Portanto, ao traçar o retrato biográfico de Honorata, a Tia Amina, através da reportagem empreendida por Diga-Mais, Nei Lopes embala a história geográfica de todo um povo, no universo de 281 páginas, e dá a ela dimensão e densidade. Tia Amina, a um só tempo, é o elo de ligação, é a fenda aberta para um mundo desconhecido e fantástico. E Nei Lopes, conhecedor desse mundo, o transpõe para a ficção, recontando a sua trajetória de maneira melódica e lúcida (ou lúdica).
Não é preciso muito esforço para se encantar com a leitura de Mandingas... (que quer dizer, na melhor tradição quicongo, segundo o próprio autor, praga , maldição , mas também feitiço , bruxaria , diabruras ). O livro é um ótimo e imperdível convite: leve, divertido, bastante sugestivo, sobretudo para quem aprecia etimologia e história antiga, causos, ditos, velhos costumes, mistérios, fabulação generosa. Como contador de histórias, agora no romance, mas na melhor acepção griot, Nei Lopes parece sem qualquer cerimônia dizer a todos de peito aberto a que veio: veio para ficar, ganhar espaço, alçando também seu voo no disputado universo literário brasileiro.
Sendo uma obra de ficção, que busca na concepção romanesca a sua forma e guia, a do caminho aventuroso, fantasioso, Mandingas... tem tudo para agradar (apesar dos vocábulos africanos ou africanizados precisarem de um glossário). Mas isto, quando muito, é de somenos importância agora. O que interessa mesmo é o dom que a história tem de pura sedução, que as mãos de Nei Lopes, mais uma vez, souberam tecer com maestria.