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'Alice no País das Maravilhas' ganha nova edição ilustrada

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Taynée Mendes, Jornal do Brasil

RIO - Verão de 1862. As circunstâncias eram ideais para Charles Dodgson: as três irmãs Linddel, que tinham entre 8 e 13 anos, estavam brincando em um passeio de barco em Oxford quando Alice, a mais nova, ordena: Conte uma história, Charles . E assim, ali mesmo, longe dos dogmas da família e da sociedade, Charles criou a fábula da menina que cai na toca do coelho.

No dia seguinte, Alice insistiu para que Charles escrevesse a história. Ele levou dois anos e meio para entregar o manuscrito pronto com ilustrações do próprio punho. Inicialmente com o título de As aventuras de Alice sob a terra, o texto foi um sucesso desde o seu aparecimento. Em uma segunda edição, já com o título que o consagraria, Alice no País das Maravilhas, o livro recebeu excelentes críticas dos jornais ingleses.

Mas o que intriga leitores e críticos é como uma história de um mundo misterioso habitado por personagens obstinados como a Lagarta, o Gato inglês, o Chapeleiro, uma duquesa feia e uma rainha com pendor para cortar cabeças, atraiu gerações de crianças e também de adultos.

O paradoxo remete ao nome de Lewis Carroll, ou Charles Lutwidge Dodgson, um professor de matemática exigente, reservado, tímido e profundamente religioso. Dodgson passou toda sua vida adulta mergulhado nos estudos em uma faculdade em Oxford, na Inglaterra. Publicou livros didáticos de matemática e lógica. Capaz de inventar histórias com aventuras absolutamente inusitadas, era popular entre as crianças principalmente as meninas valorizava suas declarações espontâneas e apreciava sua ilimitada inocência.

Com sua maneira de escrever, inaugurou um novo modo de se fazer literatura para crianças: O autor de Alice não queria ver a gurizada submetida à disciplina e às rotinas mecânicas surgidas com a industrialização da Inglaterra de sua época , escreve o historiador Nicolau Sevcenko, no posfácio de Alice no País das Maravilhas, publicado pela CosacNaify.

Durante o reinado da rainha Vitória, marcado pelo conservadorismo cultural e pela moral puritana, os livros infantis deveriam ter uma função educativa e moralizante. Nesse sentido, as obras de Lewis Carroll, ao assumir a perspectiva das crianças, delimitam um território encantado, imaginativo e lúdico, colocando de cabeça para abaixo a cultura vitoriana, ao satirizar o mundo dos adultos.

O País das Maravilhas é um mundo maravilhoso em vários níveis e sentidos afirma Sevcenko, tradutor da obra. Primeiro porque é um território fantástico, tudo envolto em uma atmosfera de sonho e mistério. Depois tem aquelas criaturas esquisitas e imprevisíveis, que não apenas falam pelos cotovelos, como fazem malabarismos incríveis com a linguagem, subvertendo a gramática e a semântica com todo tipo de enigmas e jogos de palavras.

O historiador também destaca a postura da personagem de Alice ao longo do romance:

Outro lado maravilhoso da história é que, por mais que as criaturas sejam arrogantes ou presunçosas, como a rainha, Alice confronta e nivela todas elas com a espontaneidade e a candura da sua indignação pueril diz. E essa convicção sobre a igualdade e o respeito fundamental entre todos os seres é o aspecto mais maravilhoso do livro.

As ilustrações que marcam esta nova edição são de Luiz Zerbini, que levou dois anos para a confecção do cenário fantástico de Alice. Segundo ele, um ano pensando e outro trabalhando . Suas obras brincam com o jogo de luz, sombra e efeitos ópticos, ao construir uma mise en scène insólita a partir de cartas de baralho pertencentes à coleção particular do artista.

Alice como Dom Quixote são os livros com maior número de edições ilustradas da história afirma Zerbini. Esse fato já é um desafio. Fora isso, tive de acreditar que ilustrações acrescentariam alguma coisa ao texto que, por si só, me parecia suficiente.

Com fotografia de Julio Callado e Pedro Victor Brandão, as imagens parecem narrar uma história concomitante à do livro. Zerbini conta que, durante o processo de montagem dos personagens e das cenas, uma ideia levava a outra e, de repente, estava distante da proposta de Lewis Carroll.

O que aconteceu é que realmente parecia uma história paralela a partir do original explica o artista. Parti dos soldados da Rainha de Copas, gostei e pensei que se conseguisse fazer tudo com cartas de baralho teria um um País das Maravilhas em três dimensões. Acho que Alice gostaria do resultado.

Nesta edição, Sevcenko também assina os poemas e canções do livro. Fã de Alice , ele procurou acentuar o fluxo coloquial da linguagem e a polifonia dos diálogos.

Alguns tradutores enfatizam o efeito cômico das situações e dos jogos semânticos, outros privilegiam a lógica contraintuitiva da narrativa explica. É como um jogo de xadrez: o tabuleiro e as peças são sempre as mesmas, os jogadores são dois, mas cada partida é uma história diferente. O gostoso do jogo é se jogar. Todo tradutor é um grande leitor e todo grande leitor é um tradutor.

Até hoje, Lewis Carroll carrega o fardo de ser considerado autor de literatura infantil. Na época, talvez. Mais de um século depois, cada vez mais as obras dele são leitura para adultos.

A maior singularidade de Alice é essa capacidade de engendrar um emaranhado tão denso de ambiguidades e recursos polissêmicos, que lhe permite ser lido por diferentes públicos, com diferentes faixas etárias, em diferentes épocas com uma riqueza e uma multiplicidade de sentidos que só cresce, sem jamais se esgotar acredita Sevcenko.

E não faltaram adultos que arriscaram interpretações e conjecturas ao sentido oculto dos livros de Carroll. Alguns veem Alice como uma alegoria da teoria da evolução darwiniana; outros argumentam que o livro representa o nascimento do próprio Carroll; e alguns freudianos sugerem que o livro seria sobre uma mulher em trabalho de parto. Com seus jogos de palavras e expressões metafóricas, Lewis Carroll nunca propôs soluções desse tipo, mas paradoxos. E, a despeito dessas especulações, o livro não deixa de ser divertido, além de obrigatório para quem ainda resiste a soltar a imaginação e a procurar os porquês das coisas, à exemplo de Alice.