Miwa Yanagizawa concilia novela com ensaios para uma peça

Daniel Schenker, especial para o JB, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Miwa Yanagizawa nunca exibiu sua presença. Dona de uma personalidade discreta, sempre pareceu mais preocupada em pertencer a grupos do que em desenvolver uma carreira solo. Dada a qualidade de seu trabalho, porém, começou a chamar a atenção. Integrante da ciateatroautônomo, de Jefferson Miranda, há 13 anos mais exatamente, desde a montagem de A noite de todas as ceias (1996) ela participa do próximo projeto do grupo, o ambicioso Série 21. Também vem estreitando, ao longo do tempo, contato com dois grupos, o Nós do Morro, onde dirigiu, ao lado de Guti Fraga e Fátima Domingues, Os dois cavaleiros de Verona (2006), de William Shakespeare, e o Código, de Japeri, com o qual assinou uma encenação de O inimigo do povo, de Henrik Ibsen. Exercita ainda a direção em parcerias com Guilherme Leme, em Laranja azul, de Joe Penhall, montagem em cartaz no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil, e no próximo RockAntígona, adaptação contemporânea da tragédia de Sófocles. Para completar, marca presença na novela Viver a vida, de Manoel Carlos, como Tomie, mãe de Ellen (Daniele Suzuki). Por isso, concilia as gravações do folhetim com os ensios de Série 21, trabalho em comemoração aos 21 anos do grupo, que terá 12 horas de duração.

Estamos chamando de evento e não de espetáculo. O evento começa quando o espectador compra o ingresso. Ele recebe determinadas instruções, como trazer um objeto e um registro, que pode ser carta, bilhete ou foto, seu ou de uma pessoa próxima. Deve dizer de quem gostaria de receber uma palavra de carinho. Aos poucos, a história de cada um vira de todos explica Miwa, acerca da iniciativa que mescla teatro com outras manifestações artísticas e será calcada em intervenções urbanas.

Trata-se, possivelmente, de uma guinada e, ao mesmo tempo, do desenvolvimento de vertentes da ciateatroautonomo em espetáculos anteriores Deve haver algum sentido em mim que basta (2004), E agora nada mais é uma coisa só (2005) e Nu de mim mesmo (2008) como a criação de instalações cenográficas a partir do vínculo com as artes plásticas, o aproveitamento de espaços não convencionais e a inclusão do espectador dentro da cena. Outro ponto que chama a atenção é o registro de atuação nos espetáculos da companhia, identificados por muitos como naturalista. Afinal, os atores conseguem encobrir um refinado trabalho de construção, a ponto de dar ao espectador a impressão de que estão simplesmente portando uma presença cotidiana.

Não temos uma nomenclatura para a nossa atuação. Tudo hoje é tão híbrido que não há necessidade de classificar. A partir de Uma coisa que não tem nome (e que se perdeu) (2002), procuramos zerar os vícios de atuação, de modo a cair no vazio e iniciar um trabalho renovado. Desde então, nos esforçamos para praticar essa desintoxicação. Buscamos o ordinário, o que pertence a todos, e não as ações heroicas. O que interessa é o encontro humano explica Miwa.

A atriz menciona Uma coisa que não tem nome ..., estudo cênico que marcou a volta do grupo depois de um hiato e apontou algumas diretrizes que norteariam os trabalhos a partir dali, como a utilização de obras renomadas como fonte de inspiração na produção de uma dramaturgia própria. Naquele estudo, por exemplo, Jefferson Miranda partiu de Molly Bloom, personagem de Ulisses, de James Joyce.

Para um dos exercícios, Jefferson pediu para decorarmos, sem intenção ou qualquer coisa que o valha, um trecho do monólogo da Molly Bloom. Decorar aquilo é complicado e eu pedi uns minutos para recapitular o que tinha preparado. Na minha tentativa de lembrar o texto, ele viu um possível canal para realizarmos o que pensamos: as muitas coisas que atravessam sem parar nossos pensamentos observa Miwa, lembrando de outras referências importantes, como a poesia de Walt Whitman, determinante em Nu de mim mesmo.

Ela busca riscos

Jefferson Miranda enumera as razões responsáveis pela perpetuação de sua parceria com Miwa.

Entre todas as qualidades que encontro nela, e que, talvez, nos mantenha interessados na continuação de nosso diálogo artístico está sua notável vontade e força de ir além. E isto faz, justamente, com que seu trabalho seja uma superação de si, qualidade que considero fundamental a um artista elogia o diretor. Ela busca riscos, lugares desconhecidos, e é a primeira a responder positivamente às aventuras artísticas da companhia.

Além da companhia de Miranda, Miwa vem se aperfeiçoando como diretora com outros grupos, o Nós do Morro e o Código (que surgiu de uma ação conjunta do Sesc com o Nós do Morro, chamada Tempo Livre, que consolidou espaços sócio-culturais em várias cidades do interior do Rio).

Comecei a dirigir na Ong Meninos de Luz, no morro Pavão-Pavaozinho, e depois no Nós do Morro, onde estou desde 2002. Mas minha primeira direção profissional foi a de Camarim 571, com formandos da escola de Teatro do Sated, no Retiro dos Artistas. Sou muito comprometida com o Nós do Morro porque, ali, há um trabalho social sério e de real viabilidade, no sentido de mudar as perspectivas de vida das pessoas, assim como no Código de Artes Cênicas destaca a atriz.

Hoje consolidada, a opção pelas artes cênicas ainda se mostrava incerta para a então aspirante à atriz, em 1983, em Botucatu, onde também cursou, durante um breve período, biologia.

Naquela época eu não tinha a ideia de ser atriz. Adorava me reunir com o grupo na sala do último andar do colégio La Salle, meio secreta. Sentia-me livre e tinha prazer com todo o processo e convívio com as pessoas. Achava que todo mundo que fazia teatro era incrível. Até hoje isso não mudou tanto.

Quando desembarcou no Rio , foi estudar na UniRio, onde ficou de 1985 a 1989.

Foi lá que, desde o inicio, juntei-me com outros alunos e participei de varias montagens extracurriculares. Minha primeira peça profissional foi Cinderela chinesa, dirigida por Luiz Duarte. Durante a temporada fui promovida de criada à princesa porque Bel Kutner saiu.