Dias Gomes: 'O santo inquérito' volta aos palcos depois de 30 anos

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - No auge da ditadura militar, após a institucionalização do AI-5, a produção teatral do país viu, de braços atados, o martelo opressor do governo proibir a encenação de um sem número de espetáculos. Plateias frustradas, diretores e produtores tolhidos e endividados lamentavam a produção de trabalhos impedidos de vir à tona. Em 1965, Dias Gomes sofria o seu veto. Desmistificando a figura de um falso mártir, um ex-integrante da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Berço do herói era proibida à véspera da estreia. O dramaturgo, como outros tantos artistas da época, tratou de burlar a censura. E sua obra seguinte, O santo inquérito (1966), ganhava o palco mantendo-se fiel aos seus propósitos.

Nela, o autor lança mão de uma parábola para traçar a história da jovem Branca Dias, vítima da Inquisição no século 18. Personagem emblemática da galeria de heróis puros e libertários criada pelo autor, ela é agora revisitada pela nova montagem do texto, que assume o Espaço Sesc a partir da próxima quinta-feira. Com criação coletiva do elenco e supervisão geral de Amir Haddad, a peça entra em cartaz, nesta quinta-feira, após mais de três décadas de sua última encenação, em 1977, e reforça a importância do autor para a dramaturgia brasileira, 10 anos depois de sua morte, num acidente no trânsito, em São Paulo.

Pacto social perdido

Vivemos submetidos a muitos tipos de opressão. Desde as mais óbvias, como a ditadura, como as ocultas em uma sociedade como a nossa, onde as relações de poder são extremas compara Haddad. Hoje em dia ela ainda se manifesta e a peça é sobre a perda da liberdade. O Brasil tem que lembrar o que aconteceu aqui há tão pouco tempo.

Para o diretor, o texto serve como testemunho de um teatro que pensava o país como um todo.

É o resgate da memória de um antigo pacto social que os artistas tinham com o desenvolvimento do Brasil. É algo que se perdeu lamenta Haddad. A peça expõe esse rompimento gerado pela ditadura e nos mostra como realmente é difícil ser livre. Tanto ontem como hoje.

Durante os ensaios, a cabeça e a consciência política de Haddad foram fundamentais para despertar a atenção dos atores sobre a amplitude do texto traçado por Dias Gomes.

Achávamos o texto lindo, a lenda de uma jovem como a Branca encantava. Mas com Amir, abrimos a questão política para além do período em que a peça doi escrita observa Claudio Mendes, além de ator, idealizador da montagem. Falamos de todo tipo de sistema opressor. Acho que deveríamos dar mais atenção a um período tão pulsante como o da ditadura. Volta e meia, novas histórias aparecem. Descobrimos agora que Rubens Paiva foi esquartejado. Ainda temos que investigar e digerir o que aconteceu. Amir trouxe a vivência e o olhar político.

O célebre enredo delineado por Gomes se apodera da lenda sobre a jovem Branca Dias, que teria sido queimada na Paraíba em 1750, vítima da inquisição. A personagem, interpretada por Mariana Mac Niven, é uma jovem inocente, criada numa família conservadora e cristã. Sua ideia de Deus, porém, atende à critérios particulares. O enxerga em todas as coisas que lhe dão prazer: de um banho de rio a um bom prato de carne seca.

Não é um Deus institucionalizado pela igreja, que cobra culpa e castigos. Branca é a inocência de querer o bem define Mendes, que vive o padre Bernardo, angustiado pela sua paixão por Branca.

Escrito em 1966, o texto revela, nas entrelinhas da sua narrativa ficcional, o engajamento ideológico-político e o viés humanista do pensamento do autor.

Em todos os seus trabalhos ele propõe uma reflexão em busca de uma sociedade melhor. Faz pensar no que temos que fazer para que isso aconteça. Algo que fica muito claro neste texto.

Ideologia política e humanismo

Escrita no auge da ditadura, Gomes usa o Tribunal do Santo Ofício como metáfora para o momento histórico que o país atravessava. Transportado para os anos 2000, o texto desvela um tema central.

Ele fala de todo sistema opressor. Hoje, uma nova ordem tenta se estabelecer, mas ainda esbarra num sistema oligárquico que tenta se manter no poder diz Mendes.

Para ele, Branca Dias e Zé do Burro de O pagador de promessas são personagens da mesma linhagem , diz. Haddad também compara os dois, destacando que ambos retratam um ser humano puro num mundo que não é tão belo assim.

Eles pagam muito caro por isso. São personagens que não têm nada de especial. São pessoas normais, que vivem no mundo, mas têm sua trajetória interrompida por um pensamento dominador. Analisando de perto, hoje penso que O santo inquérito é a obra mais importante dele, mas até que O pagador de promessas. A peça fala desse mesmo Brasil de hoje. Dez, 20, 30 anos atrás? Não importa. Para mim é pouco tempo.

Após a sua consagração a bordo da montagem de O pagador de promessas (1960) pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), dirigida por Flávio Rangel; e dois anos mais tarde, com a montagem do Teatro Nacional de Comédia (TNC), com direção de José Renato, Dias Gomes viu a popularidade de seu personagem Zé do Burro ganhar as telas de cinema. Dirigido por Anselmo Duarte que morreu no dia 7 deste mês o filme levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1962. Quatro anos mais tarde, após a censura de Berço do herói, ele reinventava sua linguagem para encenar O santo inquérito.

Ele burla maravilhosamente a ditadura. Há tempos que eu não retornava à obra dele. E agora, que estou íntimo do texto, fico surpreendido com a qualidade, já que ele consegue disfarçar e falar claramente sobre o que o incomodava reflete Haddad. Fico até triste e me pergunto onde será que eu estava naquele tempo... Por que eu não assisti à peça? Será que eu estava brigado com o Flávio Rangel? Acho que fiquei muito recolhido durante os anos 70, para tentar entender o que havia acontecido, refazer pedaços da nossa história dos anos 60.

Anos mais tarde, a comédia Odorico, o bem-amado, montada em 1969 com direção de Alfredo de Oliveira, ganhava as telas da TV, com Paulo Gracindo como o protagonista. Pouco antes, Dias Gomes tentara transformar a peça Berço do herói numa telenovela, mas também esbarrou na censura. Seguindo à risca sua predisposição a contornar obstáculos, adaptou elementos do enredo para a novela Roque Santeiro (1985). Valorizada pela atuação de Lima Duarte e Regina Duarte, a novela também ganhou projeção nacional. Afastado do teatro a partir de 1969, o enorme sucesso destas tramas assim como Bandeira 2 (1971) e Saramandaia (1976) o fizeram um dos mais respeitados autores de TV do país.

Ele tornou-se um grande sucesso por causa das novelas. O que eu acho uma inversão. Agora que estou envolvido com esse trabalho, percebo que esquecemos o grande dramaturgo que ele foi. A teledramaturgia ofuscou o homem de teatro. Sua qualidade, originalidade e contemporaneidade não têm ranço e nem cópia.

Encenada por Ziembinski, a primeira montagem trazia Eva Wilma como protagonista, ao lado de Paulo Gracindo, Jaime Barcelos e Rubens Correa. A atriz considera o texto um marco do teatro brasileiro.

Foi uma obra da maior importância para a época. A ditadura mostrava a sua pior face, justamente quando começaram os inquéritos. Ele foi genial ao usar esse paralelo diz a atriz. Contracenar com aquele elenco, ser dirigida por Ziembinski e dar voz a um texto desses foi um marco na minha vida. Dias Gomes extravasa o teatro, da literatura ou da TV. É importante que este texto seja montado porque é atual. Continuamos a ser perseguidos.