Adriano Espínola, JB Online
RIO - No ano passado, alguns escritores e críticos queixaram-se da ausência da obra de Sousândrade nas livrarias. Um deles aventou a hipótese de que editores não estariam interessados na poesia do maranhense por ser ela difícil, pedregosa, de pouca receptividade e incerto retorno financeiro. Contrariamente a esse diagnóstico negativo, eis que Joaquim de Sousa Andrade, literariamente Sousândrade(1832 1902), ressurge, neste ano, em dose dupla. A primeira, no semestre passado, com Os melhores poemas de Sousândrade (Global), com prefácio, seleção, notas e relato biográfico deste resenhista. A segunda acaba de sair pela Annablume/Demônio Negro e repõe em circulação O Guesa.
Se a edição da Global buscou difundir para o grande público e as escolas em particular poemas e trechos mais representativos do escritor, abarcando toda a sua obra póstuma, inclusive em seus múltiplos aspectos, românticos e vanguardistas, a do Demônio Negro restringe-se à reedição in totum do poema mais famoso do maranhense. Com uma singularidade: traz a mesma ortografia, os caracteres tipográficos e a espacialização do poema tal qual foi publicado em Londres, pela editora Cooke & Halsted, cujo depósito legal no Museu Britânico se deu em 19 de abril de 1888. Há, portanto, à disposição do leitor, um Sousândrade liricamente variado e atualizado, de um lado; de outro, um Sousândrade épico e com sabor de época, conservado na integralidade composicional de O Guesa.
Esta edição retrô não é uma reprodução fac-similar do original. O que temos é a recomposição artesanal idealizada pelo design Vanderley Mendonça, com a participação de Luiz Rosalvo Costa, que cuidou da revisão e padronização ortográfica, e Raíssa Nunes Costa, da digitação do texto. Foram impressos apenas 150 exemplares, numerados, em capas-duras impressas em tipografia sobre tecido alemão. Trata-se, pois, de uma edição para colecionadores. Primorosa. Como foi boa parte da poesia do autor, apreciada tão só por aquela imensa minoria, notadamente a partir de meados do século 20.
Esse mesmo aspecto retrô do livro pode-se perceber na apresentação do volume feita por Augusto de Campos, que praticamente reproduz o que dissera sobre o maranhense, junto com o irmão Haroldo, em Re-visão de Sousândrade (1964), vigoroso ensaio crítico que catapultou o escritor à cena literária brasileira, muito embora Fausto Cunha, em 1956, já tivesse chamado a atenção para os aspectos formalmente precursores de Sousândrade, ligando-os aos experimentalismos de Ezra Pound e Joyce. Na edição atual de O Guesa, Augusto continua a lembrar que sua poesia foi um terremoto clandestino na época e que só agora, depois de 100 anos (e não 50, como o próprio poeta previra), é que passou a ser plenamente entendido , a partir de estudos mais recentes, no Brasil e no exterior. Aproveita para fazer uma sinopse temática de todos os cantos do poema, como o fizera antes, sem, todavia, adicionar nenhum enfoque novo à obra.
É claro que Sousândrade tem problemas em O Guesa, que muitos já apontaram: a prolixidade, a expressão forçada ou insuficiente (muitas vezes para obter a rima e/ou a métrica), a obscuridade, a gratuidade de certas imagens, os lugares-comuns etc. Ele acerta mesmo é quando sai da monotonia lírico-descritiva das quadras decassilábicas e investe nos limericks de alto teor inventivo e dramático, com a incorporação de múltiplas vozes, nos cantos 2 e 10. Naquele, o alvo crítico se volta para personagens de nossa história, para a justiça, o clero e a nobreza bragantina, durante a dança e o canto verídico e grosseiro dos índios do Solimões amazônico, denominado Tatuturema. No canto 10, sai da selva e vai direto para o inferno de Wall Street , coração do capitalismo norte-americano, com as suas sempre acesas crateras do negócio , em um momento de euforia financeira e industrial.
Nos dois episódios referidos, o poeta dá um banho de inventividade estilística e ironia, com uma espantosa visão crítica da sociedade brasileira, no primeiro caso, e norte-americana, no segundo, cultora esta ao mesmo tempo da Bíblia e do mercado, da fé religiosa e do lucro, em uma antecipação daquilo que Max Weber demonstraria no seu clássico A ética protestante e o espírito do capitalismo, de 1910.
Para além dos recursos formais de vanguarda e do registro poético vertiginoso do capitalismo especulativo, de surpreendente atualidade, é preciso ver também no projeto literário de Sousândrade o propósito (realizado) de cantar as Américas pela primeira vez, através não só do mito errante do guesa oriundo dos índios muíscas colombianos transformado em persona lírica, mas também de anunciar e louvar o regime republicano, fautor das liberdades e desenvolvimento dos povos americanos, como ele passou a acreditar durante os 14 anos que viveu em Nova York.
O Guesa insere-se, assim, no projeto épico da cultura romântica que na Europa propiciou o surgimento de Childe Harold, de Lord Byron, e A legenda dos séculos, de Victor Hugo, capaz de conferir dimensão histórica aos acontecimentos políticos, fazendo do poeta um ser excepcional, um verdadeiro guia e profeta civilizatório, em uma sociedade em pleno processo de transformação urbano-industrial e de vocação internacional. Daí o hibridismo idiomático e a invenção formal de Sousândrade, como índices do caráter cosmopolita e empreendedor do mundo liberal-capitalista.
Ler O Guesa, nesta bela edição epocal, é sentir, nas velhas formas tipográficas, o quanto de poeticamente novo, miticamente fundante e ideologicamente ousado foi o poeta da ilha de São Luís, no seu périplo incessante pelos países das Américas. E sobretudo pelos séculos 19 a 21, aqui refletidos nas vias abertas da língua portuguesa.