'Estrela distante' de Bolaño investiga o mal absoluto

Antônio Xerxenesky, Jornal do Brasil

RIO - Foi em 1996 que Roberto Bolaño, o falecido autor chileno que está mais em voga do que nunca, lançou o complicado La literatura nazi en América. A obra foi tachada de romance pela crítica, que não sabia como classificar aquele curioso livro composto de verbetes onde Bolaño, como um historiador, traçava biografias de escritores latino-americanos fictícios que teriam uma relação direta ou indireta com o regime nazi-fascista.

O romance , que por sua estrutura lembra Bartleby e companhia, do catalão Enrique Vila-Matas, encerrava com uma biografia de 20 páginas de Ramírez Hoffman, um poeta que desenhava seus poemas com fumaça no céu, e também um assassino brutal.

Insatisfeito com a maneira esquemática com que trabalhou um personagem tão fascinante, Roberto Bolaño dedicou a essa figura seu romance seguinte, Estrela distante, finalmente traduzido e recém-lançado no Brasil.

A narrativa inicia em um Chile que se encontra às vésperas da ditadura de Pinochet. O narrador, alter-ego de Bolaño, circula como em Os detetives selvagens, um dos seus romances mais conhecidos por oficinas literárias onde se reúnem jovens poetas.

É lá que conhece Alberto Ruiz-Tagle, o talentoso poeta que se revela um assassino monstruoso. Após o golpe militar que derrubou Salvador Allende, o narrador é preso e, atrás das grades da prisão, observa um piloto escrever poemas crípticos no céu. Só algum tempo depois descobre que Carlos Wieder, o piloto-poeta, e Ruiz-Tagle, o assassino, eram a mesma pessoa.

O estilo de Bolaño já impressionara leitores em Os detetives selvagens por não perder a fluidez em momento algum das suas 650 páginas (embora a alternância frequente de narradores tenha resultado exaustiva para alguns) e por não apelar para frases de efeito. Em Estrela distante, seu estilo encontra-se afiado e concentradíssimo.

A brevidade do livro, que, a julgar somente pelo tamanho, poderia ser considerado uma novela (ainda que o próprio autor o chame de romance), exige uma concisão extrema para relatar tantos eventos em tão poucas páginas, e Roberto Bolaño demonstra pleno domínio da técnica narrativa ao conferir uma velocidade digna de um thriller policial a um livro de estrutura fragmentada.

Estrela distante procura grafar a trajetória de cada um dos personagens apresentados no início, desde os professores das oficinas literárias até os poetas, em uma tentativa de compreender o enigmático personagem central. É nessa busca que reside o triunfo do romance: como entender uma pessoa que é artista e assassino ao mesmo tempo?

O livro é marcante na carreira de Bolaño por trazer de forma concentrada o tema que se provaria central para o autor chileno: a relação entre ética e estética. Assim como na novela Noturno do Chile, na qual presos políticos eram torturados no porão da casa onde os intelectuais se reuniam para os saraus, Bolaño denuncia uma incômoda duplicidade que parece ecoar a máxima de Walter Benjamin: Todo documento de cultura é também um documento de barbárie .

É dessa forma que o personagem Carlos Wieder se mostra tão incompreensível quanto fascinante, como aponta o narrador para o fato de que só um dos corpos das pessoas por ele assassinadas foi encontrado: Apenas um cadáver aparecerá anos depois numa fossa comum (...) para provar que Carlos Wieder é um homem, não um deus .

Wieder é apresentado primeiro como o homem que queria revolucionar a poesia chilena, porém sua única ética é a estética. A sua ambiguidade se mostra constante desde o início até o surpreendente desfecho, e é central para a investigação das complexidades do mal absoluto que Bolaño propõe em seus livros, que viria a culminar na obra-prima 2666, em que se cruza o destino de um autor recluso com o assassinato de centenas de mulheres em uma cidade fronteiriça.

Enquanto 2666 permanece inédito no país a Companhia das Letras promete a tradução para março o leitor brasileiro tem a oportunidade de mergulhar no perturbador Estrela distante.