Raimundo Carrero completa tetralogia 'Quarteto áspero'

Cristiane Amorim, Jornal do Brasil

RIO - O escritor pernambucano Raimundo Carrero estreou em 1975 com Bernarda Soledade: a tigre do sertão. O toque bem dosado de experimentalismo aliado a uma personagem toda luta , capaz de, em sua volúpia de posse, arrebatar e dominar o leitor, fez de Carrero grande promessa literária, devidamente cumprida em sua extensa trajetória ficcional. No romance recém-lançado pela Record A minha alma é irmã de Deus, é possível encontrar alguns traços dessa primeira publicação: uma construção formal em redemunho harmonizada a personagens atordoados por uma existência solitária e, por vezes, desesperançada. Os seres carrerianos quase sempre se encontram imersos na atmosfera agônica e algo ensandecida de pensamentos que se multiplicam indefinidamente, numa tentativa de fuga ou, talvez, de compreensão do real, ainda que pelo viés da contradição, pela inserção na narrativa de um fluxo de consciência alicerçado em antagonismos.

Se em O amor não tem bons sentimentos, publicado em 2007, Mateus apresenta inúmeras versões para o (provável) assassinato da irmã Biba, em A minha alma é irmã de Deus, a protagonista Camila se confunde com Raquel, Ísis e Mariana, personagens presentes neste ou em outros romances de Carrero. Ela é, portanto, um mosaico, símbolo da ânsia de completude, elaborado com cacos de vários destinos. O autor pernambucano reafirma o gosto pelo jogo das possibilidades.

Para essa prosa intrincada convergem elementos intra e intertextuais. O próprio ficcionista alerta, no posfácio, que A minha alma é irmã de Deus fecha a tetralogia Quarteto áspero, composta ainda por Maçã agreste (1989), Somos pedras que se consomem (1995) e O amor não tem bons sentimentos. De fato, a grande família incestuosa presente na prosa de Raimundo Carrero, composta por Dolores, Ernesto, Jeremias, Raquel, Ísis, Biba e Mateus, começa a se delinear no romance de 1989 e atravessa os demais, dando corpo a um quebra-cabeça cujas peças não apresentam um encaixe preciso, mas aguçam no iludido (e curioso) leitor o desejo lúdico de completar as partes para dar conta do todo.

Carrero dialoga com os grandes autores da literatura brasileira e universal. Se a frase de Faulkner Uma pessoa era uma comunidade inteira , que abre o romance, se coaduna perfeitamente a Camila, em sua personalidade múltipla e perspectivada, encerrando até certo didatismo, a oração As coisas acontecem antes de acontecer proferida pela protagonista de A minha alma é irmã de Deus, após apresentar algumas versões para o seu primeiro encontro com Jeremias parece implicitamente remeter ao romance clariciano A hora da estrela. Para Rodrigo S.M., o desejo de iniciar a história da nordestina pelo começo é pretexto para a indagação metafísica sobre o início dos tempos: Como começar pelo início se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? . A impossibilidade de chegar ao princípio das coisas, ao ponto de origem, é preocupação comum a ambos os autores. Camila é uma espécie de Macabéa do século 21, sem a carga de inocência da datilógrafa, arrastada à miséria por também estar só num mundo povoado.

A construção prismática dessa personagem central é prenunciada também na epígrafe de Lawrence Durrell ( Cinco imagens diferentes da mesma pessoa ). Todavia Camila não se transmuta em Raquel, Isis e Mariana como alguém que, por amar a vida, desejasse vivê-la tão intensamente a ponto de reunir outras personalidades, outros destinos, mas, sobretudo, porque carece de ser muitas para preencher o vazio existencial, para se manter respirando em uma identidade claustrofóbica.

Se, em Carrero, é evidente a fusão de solidão, incesto, culpa, loucura, suicídio e assassinato, elementos ora desencadeadores ora consequentes, não se pode negligenciar a presença da miséria na constelação temática do autor.

Em várias obras, o romancista traz à cena sua desamparada raça anã que, por vezes, na ânsia de cobrar seu direito ao grito, lança mais dores ao mundo. Todo o tipo de violência, inclusive as quase imperceptíveis, como a ausência de afetividade nas relações, gera violência. Talvez esse seja o principal campo ideológico infiltrado nas entrelinhas.

O sentido do texto

Todorov, em A literatura em perigo, atenta para a importância do sentido no texto literário e para a saturação das narrativas umbiguistas. O mérito do escritor pernambucano também se apresenta na elaboração de uma prosa para além da já esgotada secura ficcional, própria de muitos autores contemporâneos atenta à problemática social sem perder em literariedade.

Se, por um lado, Carrero costuma ser tachado de excessivo ou romântico, por conta de um texto hiperbólico e impregnado da culpa católica, que acentua a dicotomia corpo/alma, é inegável que esses mesmos elementos promovem na sua obra a poeticidade textual e fazem com que o autor se destaque do realismo fotográfico, típico de boa parte da ficção das últimas décadas. Na obra de Raimundo Carrero, a violência angaria extraordinárias doses de lirismo.

Os rostos de expectativa , em A minha alma é irmã de Deus, são filhos da pobreza, senhores do lixo que suportam os dias vazios de comida . O narrador, como Rodrigo S.M, também parece mostrá-los ao mundo para torná-los visíveis. A prostituta Raquel tem um caridoso corpo social , porque empresta seu sangue para os que só experimentam a fome, enquanto a libidinosa Ísis, pura legião , era sócia do próprio corpo . A sequestrada Camila, infantil e mística, quer ir para o céu , desfilar no exército das 11 mil virgens . Seu pai, que jamais para de ler o jornal, é indiferente ao sequestro. O recurso do exagero na atitude paterna marca, pelo insólito de teor kafkiano, a deterioração da afetividade humana em sua ordem social primeira.

Mas, dentre os personagens, Conrado é o mais intrigante, pois, saudoso do século 19 e desgostoso do adiantado do mundo, andava de costas para encontrar o passado .

É possível verificar também, na narrativa carreriana, paródias a Drummond, a Machado e à Bíblia, conscientes ou não, e outras tantas. Há também alguma teatralidade, compreensível pela raiz dramaturga do autor de Bernarda Soledade.

A obsessão de Camila em usar um batom para cada ocasião, ainda que em meio ao lixo, se, por um lado, é índice da vaidade feminina, por outro, talvez mais profundo, evidencie a tentativa de maquiar a realidade. De forma intratextual, ela é sem dúvida Mariana, Raquel, Ísis, Paloma; todavia, no intertexto, Camila pertence à classe das macabéas, ambas atropeladas pela vida, pertencentes a uma raça anã, irmanada a Deus, que caminha pelo dorso quente do mundo .