Eli Gottlieb diz que tem vontade de matar

Lúcia Bettencourt, Jornal do Brasil

RIO - Trazido pela editora Rocco para participar da última Bienal do Livro do Rio, Eli Gottlieb afirmou que fica decepcionado com o nível de inteligência de seus críticos americanos, os quais, segundo o autor, não estão preparados para analisar alguma coisa que custa tanto para construir como um romance. Seus problemas com a crítica, revelou ele, levam-no a ter vontade de matar .

Violentas emoções? Esperem até começar a ler o segundo romance do escritor, O homem que você vai ver, narrando a história de Rob Castor, uma celebridade cult menor , que tinha escrito um livro soturno ambientado numa cidade medíocre e monótona do interior do estado de Nova York , e que mais tarde mata sua namorada e depois se suicida.

Isso pode nos assustar pelo paralelismo, pois temos nas mãos um livro melancólico, passado numa cidade do interior de Nova York. Mas as semelhanças param por aí.

Simpático e delicado?

Eli e sua mulher, após a Bienal, foram passear na belíssima e nada soturna Ilha Grande. O escritor americano é professor de literatura, amante de poesia, e parece, apesar das ameaças, simpático e delicado. Seu primeiro romance, The boy who went away, foi um sucesso de vendas e recebeu o prêmio McKitterick, que contempla o primeiro romance de um autor acima dos 40 anos.

A história de Rob Castor é narrada por Nicholas Framingham, companheiro de infância do escritor. Abalado com a morte do amigo, Nick vai, pouco a pouco, reconstituindo os últimos momentos da vida do escritor e de sua vítima e, mais do que isso, passa a limpo sua própria vida, sua infância, seu relacionamento insatisfatório com os pais, seu casamento falido, sua carreira medíocre.

Mais do que a história de um crime, no entanto, é a história dos ciúmes que envenenam as pessoas e as destroem por dentro, pouco a pouco. É a história das mentiras e das coisas que calamos, e que depois infeccionam e assumem proporções aterradoras.

A história tem o ritmo controlado com perícia: as informações são administradas a conta-gotas, criando suspense e revelando surpresas que, arrasadoras, vão modificando a vida do narrador e prolongando sua depressão e desatino até o desfecho. O segredo do suspense está no ritmo em que as revelações são feitas, pausas matemáticas que constroem as emoções e que induzem os leitores a simpatizar com o narrador, perdido numa teia de desamores, sentindo-se sempre preterido.

Ao relembrar sua infância, ele se ressente da preferência demonstrada pelo pai com relação ao filho mais velho, morto num acidente de automóvel. Após a morte do irmão, Nick se sente ainda mais afastado do pai. Na escola, ainda adolescente, também se sentia desconfortável e seu único apoio é a amizade com Rob Castor, jovem popular e atraente. Magnetizado, Nick enceta um breve namoro com a irmã de Rob, Belinda, e também se sente atraído pela pouco tradicional Shirley Castor, mãe de seu companheiro, a quem homenageia com encabuladas ereções.

Casado com a bela e elegante Lucy, Nick vai se distanciando e acusando-a de afastá-lo de seus filhos, estabelecendo com os meninos uma intimidade cúmplice, que o exclui. Ele também suspeita das relações de sua mulher com o terapeuta de casal, e é assim que, enciumado e carente, reata os laços com Belinda, a roqueira com a anatomia de um jogador de futebol americano .

Os truques de construção do livro ficam mais em evidência a partir do capítulo 27. Num encontro com o outro amigo de infância de Rob Mac o que poderia ser uma revelação transforma-se num jogo entre os dois. Nick, enciumado como sempre, frustra as expectativas do outro, sonegando-lhe a informação procurada para que ele não possa escrever o livro que lhe foi encomendado sobre a vida de Castor.

Insuficiência de afeto

Essa pequena vingança é uma das muitas que se vão consumando entre as páginas do livro. A cada passo uma confrontação, a cada revelação uma urgente necessidade de reavaliar as fundações de vidas aparentemente desperdiçadas pela insuficiência de afetos.

As paixões não são perdoadas, e todas as mulheres são castigadas. Seja Kate, cuja vida termina ceifada pelo desesperado Rob, sofrendo de bloqueio de escritor, que não se conforma com o sucesso literário da mulher nem com seu caso amoroso com um burguês ; seja Belinda, cujo físico tão duramente criticado por Lucy não desagrada ao desorientado Nick; seja a própria mãe do narrador, agora vivendo no Arizona, mantendo-se ocupada com livros e pássaros; seja sua rival Shirley Castor, destruída pela velhice e pela bebida; ou até mesmo Lucy, sofrendo com o casamento em franca desagregação, nenhuma consegue a redenção nem a salvação.

O próprio Mac, cujas coxas grossas chamam a atenção do narrador sempre que se encontram, sugerindo uma atração homoerótica, também se vê condenado a permanecer no limbo e na periferia. Enfim, todos os personagens falham e ficam condenados à imperdoável mediocridade de suas vidas. Nem mesmo a morte lhes aufere grandeza.