Anne-Marie Métailié: luta para divulgar autores brasileiros na França

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

OURO PRETO - No final de 2008, a francesa Anne-Marie Métailié, fundadora da Métailié editora que mais publica autores brasileiros na França participava de um conferência sobre Machado de Assis em uma universidade de Paris. Respondendo à pergunta de uma auditora da plateia, passou a criticar ferozmente a política cultural brasileira para os livros, citando suas próprias experiências, marcadas por falsas promessas e entraves burocráticos absurdos. A final da palestra, foi abordada por um político brasileiro, que se disse chateado com seu relato. E garantiu que o governo faria qualquer coisa para apagar a má impressão. Quero três passagens para trazer escritores brasileiros para a França , pediu então a editora. O político deu sua palavra de que ela seria atendida. Resultado?

Ainda estou esperando as passagens conta Anne-Marie ao Jornal do Brasil, em um restaurante de Ouro Preto, onde foi a grande homenageada do quinto Fórum das Letras, encerrado segunda-feira.

Complicação extravagante

O episódio é representativo do que a editora vê como um vício bem brasileiro. Há quase 30 anos, Anne-Marie defende nossa literatura na França. Já publicou diversos autores nacionais clássicos (como Euclides da Cunha e Lucio Cardoso) e contemporâneos (Bernardo Carvalho, Mario Sabino e Luiz Ruffato), além de ser responsável pela redescoberta de Machado de Assis, no país, com a publicação de novas traduções do Bruxo de Cosme Velho, em 1982. Para tanto, serve-se dos sistemas de apoio franceses, que bancam metade dos gastos de cada tradução. Quando depende de ajuda brasileira, porém, Anne-Marie encontra obstáculos que a tiram do sério.

O problema com o Brasil é que o governo diz que há um sistema de ajuda, que, na prática, não existe afirma a editora, com uma certa exaltação. Há sempre promessas, mas elas nunca se confirmam. Eu entenderia se recusassem nossos pedidos. Isto seria perfeitamente compreensível. Acontece que se gasta dinheiro, mas sem lógica. Parece que o governo não sabe o que quer! A administração é de uma complicação extravagante. Não importa o que façamos, surgem obstáculos burocráticos.

Para Anne-Marie, alguns episódios beiram o surrealismo . Ela lembra de quando foi anunciado um chamado de ajuda internacional. Oito países gastaram tempo e recursos preparando dossiês para serem contemplados. Só que, na última hora, o governo mudou o comitê de julgamento e decidiu que o patrocínio seria acordado apenas a editores italianos. Outra lembrança amarga é a tradução de Os sertões, de Euclides da Cunha. O governo federal havia prometido apoio financeiro, que só chegou um ano depois da publicação. Com os livros já presentes nas prateleiras das livrarias, ficava impossível inserir o selo de patrocínio na capa.

Ela cita ainda a extravagância dos anúncios oficiais, que costumam fazer escarcéu, mas sempre com pouquíssimos resultados concretos. Recentemente, gastou-se uma fortuna trazendo editores internacionais a Paraty, onde se anunciaria um amplo patrocínio. Apesar de toda a pompa, o programa durou apenas um ano.

O mais absurdo é que não se ouve a opinião dos editores locais continua Anne-Marie. Por exemplo, se eu quiser lançar autores franceses no Brasil, vou consultar os editores do país, para saber qual a melhor época para publicá-los... Mas o governo brasileiro parece seguir uma lógica própria. Este ano, bancaram a vinda do Bernardo Carvalho para um Salão do Livro no qual o país homenageado era o México! Qualquer um poderia adivinhar que a imprensa não daria atenção a um escritor brasileiro nesse contexto.

Para um livro dar certo no exterior, é preciso que o autor viaje, permitindo que o público local o conheça. Mas, como exemplifica o episódio contado no primeiro parágrafo, é quase impossível conseguir passagens aéreas dos representantes nacionais. Recentemente, a vinda à França da escritora Adriana Lisboa, que teve seu Sinfonia em branco publicado este ano pela Métailié, só foi possível graças ao investimento de um livreiro interessado.

Para defender um autor, é preciso mostrá-lo justifica a editora. O público tem necessidade de ver o ser humano por trás do escritor. Sabe quais são os autores que mais funcionam na França? São os irlandeses e escoceses. Mas não porque são melhores ou por que estão mais perto, e sim porque seus países oferecem um sistema que ajuda a traduzi-los e a trazê-los para cá. Não entendo porque o Brasil não se esforça para mostrar ao mundo seus autores, sua diversidade literária... Não é possível que vocês queiram ser representados apenas por Paulo Coelho!

Bastante emocionada, ela se desculpa. E justifica sua exaltação:

Eu amo este país e sua literatura e fico com o coração partido de ver o que acontece. O Brasil se comporta como se ainda fosse um país subdesenvolvido dos anos 60. Mas o país que vejo não é mais assim. Tem uma produção literária forte e pesquisa intelectual interessante. Por que não valorizar isso?