Aos 83 anos, Tony Bennett resistiu ao rock'n'roll e à contracultura

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - O telefone toca. Do outro lado da linha, vem a voz segura e acolhedora, própria dos melhores entertainers.

Hello, Mr. Torres! Tony Bennet speaking...

Não é todo dia que um mito liga para seu celular. Ainda mais se o mito em questão é Tony Bennett, 83 anos, provavelmente o último exemplar vivo de uma espécie em extinção: o cantor pop pré- rock' n' roll, fiel ao grandes standards. Porta-bandeira do padrão de qualidade do cancioneiro americano clássico, o artista, que se apresenta no Vivo Rio na próxima quinta, seguiu por toda a carreira um conselho deixado pelo mestre Frank Sinatra em seu ouvido: Nunca use canções baratas .

E, a julgar pelo repertório do show, que recupera clássicos de toda a sua carreira, não haverá mesmo espaço para canções baratas. Na trilha, obras essenciais como Once upon a time, Fly me to the moon, Because of you, The shadow of your smile, For once in my life, The way you look tonight e I left my heart in San Francisco (sua canção de assinatura).

Essas canções são eternas diz Bennett. Sempre fui contra a ideia de jogar na cara das pessoas sucessos fáceis e grudentos, que daqui a duas semanas estarão no lixo. As músicas que canto vão durar para sempre.

Habitué dos palcos cariocas, Bennett volta à cidade depois de passar por Porto Alegre, Brasília, Belo Horizonte e São Paulo. Apaixonado por música brasileira, especialmente Tom Jobim e Ivan Lins, terá dessa vez a companhia de sua filha, Antonia Bennett, que abrirá seus trabalhos.

Eu amo o Rio continua o cantor Amo a terra, o céu, as árvores... Sua cidade é um lugar muito acolhedor.

Renascimento nos anos 80

A cordial e elegante saudação de Bennett ao telefone remete a uma outra idade da indústria musical, da qual o cantor se impõe como um símbolo de resistência. Sua geração é a de artistas que tinham como uniforme de trabalho o black-tie e maneiras mais refinadas e sedutoras de se apresentar e lidar com o público. Um universo que pode parecer pouco familiar aos mais jovens, criados pela pose autodestrutiva dos roqueiros, ou pelo enfado pós-moderno do eletrônico.

Depois que Elvis Presley ficou famoso, depois que os Beatles e os Rolling Stones surgiram, a musica decaiu defende o cantor. Ficou difícil de se fazer um tipo de música que não encha estádios. Mas na verdade, nunca competi com o rock. É um estilo diferente do que faço. Antigamente, só havia gigantes na indústria. Depois que eles foram desaparecendo, de uma hora para a outra as pessoas começam a me apontar como o grande mestre. Mas para mim, os mestres foram Sinatra e Nat King Cole.

O surgimento da cena rock e da contracultura realmente deixaram os mestres do standards em maus lençóis. A partir da beatlemania começaram tempos difíceis até para Sinatra. Depois de um período morno, a carreia de Bennett renasceu nos anos 80, assim que seu filho mais velho assumiu o posto de seu empresário.

A ressurreição definitiva do cantor aconteceu com o disco MTV Unplugged, gravado em 1995. Na época, o veterano assistira por acaso ao canal e se deu conta que gostava de videoclipes. Pediu então ao filho que acertasse com a emissora um trabalho que o reaproximasse do público mais jovem. Foi também seu filho que concebeu o último álbum que chegou a obter altas vendagens: Duets, em que faz parcerias com Paul McCartney, Celine Dion e Barbra Streisand e Stevie Wonder, entre outros.

Danny é brilhante exulta Bennett. Mudou minha carreira tomando as decisões certas. É o melhor empresário que se pode ter e nossa parceria realmente funciona.

Exemplo de longevidade, Bennett começou a cantar profissionalmente nos anos 50, depois de servir na Segunda Guerra. Nascido Anthony Dominick Benedetto, mudou para o nome artístico por sugestão de um de seus ídolos, Bob Hope, que o descobriu num clube noturno. Os primeiros sucessos vieram como crooner de canções pop. Mais tarde, aperfeiçoou-se nas técnicas do jazz, cantando com gente do porte de Bill Evans, Count Basie, Herbie Hancock, Herbie Mann, Art Blakey e Stan Getz.

Amo o que faço

Quem já teve a oportunidade de vê-lo em cena conhece sua habilidade de estabelecer estabelecer um sentido de alegria, de alta satisfação com o que faz , como já disse o The New York Times. Ao contrário do seu colega Charles Aznavour, que já se aposentou pelo menos umas três vezes com direito a diversas turnês de despedidas Bennett nem pensa em aposentadoria.

O segredo para permanecer tanto tempo em atividade é estar com a voz sempre em forma, respeitar o público e só cantar boa música explica. E, claro, amar o que você faz, que no meu caso é cantar para as pessoas. Se você é apaixonado por algo que faz, não há limites. Tenho sorte, muita sorte mesmo, de ganhar dinheiro com minha paixão. Nunca pensei em me aposentar. Por que deixar de fazer algo que eu amo?

Além da paixão pelos standarts, Bennett se dedica à pintura e à defesa dos direitos humanos. Nos anos 60, participou de manifestações pela paz e pela igualdade racial. Ele próprio um fruto da miscigenação racial, lutou contra a segregação.

A vida é um presente, e deve ser apreciada filosofa. Minha teoria é que temos pouco por aqui, é preciso aproveitá-lo ao máximo. As pessoas merecem ficar no seu canto, sem ser incomodadas por ninguém. Há lugar para todo mundo. Depois da guerra, tornei-me um pacifista para sempre.