'À procura de Eric': comédia que une futebol e política

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - São cerca de 400 filmes, vindos das mais distantes e obscuras partes do globo e realizados dentro de diferentes formatos, gêneros e grau de comunicação com o público, espalhados por um circuito formado por 17 salas de cinema. Mas quem terá o privilégio de dar o pontapé inicial da 33ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, quinta-feira, em sessão para convidados, é uma deliciosa comédia que mistura futebol e realismo social (inglês). À procura de Eric, é um gol de placa do diretor Ken Loach que tem seus pontos fortes no otimismo do roteiro e na figura do jogador de futebol Eric Cantona, coprodutor do filme.

Abrir com um filme mais leve do Ken Loach é como um antídoto para os tempos de crise. É uma história que prega a união, a generosidade e faz a gente repensar um monte de ideias preconcebidas, e até mudá-las justifica Renata Almeida, codiretora da maratona paulista.

Petardo antibelicista

A história de Eric Bishop (Steve Evets), um carteiro socorrido na crise de autoestima por alucinações com o jogador francês, o grande herói do personagem, abre o meio de campo para uma programação que está mais para o cool, em contraste com a dieta pop normalmente oferecida pelo Festival do Rio. A grade paulista inclui títulos mais ou menos óbvios, de fácil assimilação pelo público, como O mundo imaginário do Dr. Parnassus, de Terry Gilliam, o último filme do ator Heath Ledger (1979-2008), e Abraços partidos, de Pedro Almodóvar, mas também se esforça para cobrir cinematografias menos visíveis, as do Azerbaijão, Irã, Grécia, Áustria, Sérvia e Israel.

Entre estes últimos, estão boas surpresas da temporada, como Lebanon, do estreante israelense Samuel Maoz, um potente petardo antibelicista que venceu o Festival de Veneza, em setembro. Ainda no âmbito das produções avalizadas por festivais estrangeiros, está o austríaco A fita branca, de Michael Heneke (A professora de piano), vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Autor da impressionante fotografia em preto-e-branco do filme, Christian Berger, colaborador de Haneke, virá à Mostra para realizar uma oficina sobre a arte de iluminar sets.

Outra presença confirmada é da atriz francesa Fanny Ardant, que virá apresentar Cendres et sang, seu primeiro trabalho como diretora. A Mostra de 2009, que se encerra em 5 de novembro, também abrigará retrospectivas do grego Theo Angelopoulos e do produtor e diretor italiano Gian Vittorio Baldi. Ambos estarão em São Paulo para a homenagem.

Entrevista: Ken Loach

Quer dizer que o senhor finalmente conseguiu fazer um filme sobre política e futebol, dois de seus temas preferidos?

Bem, para falar a verdade, há muito tempo Paul (Laverty, roteirista de longa parceria com o diretor) e eu estávamos procurando o momento e o lugar certos para fazer um filme sobre futebol. E então, de repente, recebemos um maravilhoso telefonema do Eric (Cantona) convidando para um encontro de trabalho. Eric, que estava querendo investir em um filme, nos falou de sua relação com os fãs, que é muito especial para ele. Paul, por seu lado, tinha na cabeça um treinador, chamado Eric Bishop, fã de Cantona, cuja carreira entrava em declínio à medida em que a do jogador ascendia. O roteiro é resultado da combinação dessas ideias.

De quem foi a ideia de transformar Cantona numa espécie de protetor da classe operária?

Na verdade, ele surge como um filósofo francês, o que é uma grande piada (risos). Paul (Laverty) passou bastante tempo com Eric e usou algumas das coisas reais da personalidade dele, especialmente quando fala sobre futebol, seus sentimentos sobre o jogo, o significado do time, e escreveu alguns diálogos a respeito em tom filosófico. Então, o personagem de Cantona no filme é uma combinação de sua imagem pública com o homem real.

O senhor apoia o Bath City. Torce pelo time como empresário ou amante do futebol?

Vou como empresário e, portanto, a coisa mais importante para o time é vencer (risos). Se o resultado for um bom jogo, melhor, mas o mais importante é vencê-lo. Mas, repito, é ótimo assistir a um belo espetáculo de futebol. Prefiro estar no campo a vê-lo de um aparelho de televisão.

Diferentemente de seus últimos filmes, 'À procura de Eric' é uma história otimista. Foi uma decisão consciente?

Fizemos alguns filmes muito trágicos nos últimos anos. É bom voltar ao bom humor de vez em quando. É agradável fazer um filme com um sorriso no rosto. Mas é bom lembrar que uma comédia é uma tragédia com um final feliz. No caso de Eric Bishop, o protagonista, seria fácil poderia render facilmente um personagem trágico. Bastava juntar elementos relacionados a futebol, à separação da mulher, o conflito com os amigos. Os ingredientes para a tragédia também estão ali.