Ney Matogrosso: canções de amor no repertório de 'Beijo bandido'

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Ney de Souza Pereira nasceu na pequena Bela Vista, divisa com o Paraguai. Lá, desde menino, observava crianças e adultos armados, ladrões e assassinos que cometiam crimes e atravessavam para o país vizinho pela água. Cresceu na fronteira. E talvez por isso não seja homem de um lado só. Optou pela margem, descobriu-se hippie e artesão no Rio, mas foi jogado ao lado oposto. Impulsionado pelo caráter espetacular de seus atos, de São Paulo foi catapultado pela mídia mesmo no epicentro da ditadura militar. Pois é, estava escrito que Ney Matogrosso tinha destino aventureiro. Vagabundo, inclassificável, sujeito estranho, apenas seu tipo. E causa feitiço. À flor da pele, brinca até hoje com o pecado para se fazer bandido. Mas mantém-se vivo. E ao cair da tarde no Leblon, do alto de seus 68 anos e de sua cobertura, ilumina com olhos de farol a plena consciência de que as aparências enganam. Literalmente.

O bandido é só um arquétipo, vem de onde eu nasci. Sabe como é fronteira, né... A pessoa mata e rouba, atravessa para o outro lado com a água na cintura e a polícia não vai atrás. É algo que tenho na minha cabeça. Mas não tem a ver comigo despista.

Entre marginal ou fora da lei, Ney prefere o subversivo que se desnudou adornado por rosas brancas (Feitiço, 1978), empunhou faca e externou o peito peludo (Bandido, 1976) e agora transpassa os olhos com uma faixa negra à Zorro para estampar a capa de seu novo trabalho, Beijo bandido.

Eu gosto é de provocar repete três vezes a frase, antes de prosseguir. No meu segundo disco, sim, abusei da imagem do bandido. Mas sou subversivo.

Mas logo depois, admite: Fui marginal . Mas por opção, ele diz, por não concordar com o que acontece . E até hoje pensa da mesma forma. Continua com os mesmos ideais e reflexões sobre a sociedade organizada, o governo e a igreja: Sou contra tudo isso . E desde que subiu ao palco mascarado e pintado à frente dos Secos e Molhados, não vê nada mudar.

Continuo incomodado com um país que não dá educação. E por conveniência. A pessoa que lê, estuda e pensa, passa a refletir e a questionar analisa. Olha, eu era um hippie, um artesão... E me sentia confortável em viver assim, mas fui convidado para cantar numa banda que aconteceu. E aí, da margem eu fui para o centro gerar dinheiro para o Estado brasileiro. Deixei de ser marginal quando me tornei cantor.

Sem crise com a idade

Marginal, ou não, Ney esteve sempre à margem da ideia que fazem de sua pessoa. Criou uma persona. Aliás, várias. Porque repetir fórmulas até hoje não é a sua.

Eu não quero repetição. Eu tenho e poderia reciclar uma fórmula. Mas isso não me interessa. Quero descobrir novas coisas. Se não eu viro a caricatura de mim mesmo. E a criação é o oposto disso.

Sendo assim, seu 31º álbum solo é o extremo oposto de Inclassificáveis. Sai do palco a eletricidade da guitarra e da pegada roqueira e entra em cena uma atmosfera camerística, adornada por violinos, violoncelos, violões, piano e bandolim.

Inclassificáveis é extrovertido, enérgico e elétrico. Busquei uma estética menos extravagante, justo por ser o contrário do que eu estou fazendo. Não queria o rock e a guitarra elétrica, me interessava buscar algo mais suave, mas não débil ou frágil.

Deixa o corpo a exuberância dos figurinos platinados e se apruma num terno claro, justo e cortado por Ocimar Versolato para esculpir um álbum de canções, romântico. E em vez de um samba ou bossa, ataca de Tango para Tereza para anunciar suas intenções. Canta que a luz do cabaré já se apagou em mim/O tango na vitrola também chegou ao fim/Parece me dizer que a noite envelheceu/Que é hora de chorar e de lembrar...

Mas isso não é o que eu penso. O que me interessa é ser dramático, mas as pessoas confundem. Acham que o resultado artístico tem a ver com o que você está vivendo. E nem sempre é verdade. No meu caso, nunca.

Diz que a criação independe do que vive. Encara-a como um exercício.

Faço um disco altamente romântico sem estar apaixonado.

Também canta exuberante sem cuidados especiais, faz ginástica diariamente para se manter o mesmo, diferente da maioria, que quer se transformar em outro , diz. E o principal, mantém aceso o ímpeto que o leva a encarnar na pele do Bandido da Luz Vermelha, protagonista do longa-metragem Luz nas trevas A revolta de Luz Vermelha, concebido por dois ícones do cinema marginal, a musa e agora diretora Helena Ignez e o cineasta Rogério Sganzerla (1946-2004), autor do argumento do filme.

Não perdi o ímpeto que me empurra e me leva. Se tenho o estímulo, eu vou extravasar. E se me sinto bem fisicamente, posso ser extravagante. Porque sou mais crítico do que aqueles que me criticam diz. Não acho que por ter a idade que tenho devo me submeter a nada. Encaro a passagem do tempo com naturalidade porque funciono 100%. Quando fiz 60, tive dúvidas se poderia vestir as roupas que uso. Mas no dia seguinte pensei... Porra, sou a mesma pessoa!