Taynée Mendes, Jornal do Brasil
RIO - Ninguém sabe nada. Eis o ponto
de partida para O albatroz azul,primeiro romance de João Ubaldo Ribeiro lançado em sete anos. O
livro conta a história de Tertuliano
que, por alguma razão, está certo
que sua vida vai mudar com a
chegada de seu neto, que nasceu
virado para a lua. Em 2007, o autor
baiano foi para Objetiva mas ficou
devendo, por contrato, uma nova
obra à Nova Fronteira, que era sua
editora havia mais de 20 anos. Nesta
entrevista ao Ideias&Livros, João Ubaldo fala, sem medo de nomear
as palavras, sobre seu aguardado
romance, o mercado editorial e o
imponderável da vida.
O albatroz azul é um livro menor no número de páginas em relação
a outros de seus romances.
O tamanho foi o ideal para
contar a história?
Quando comecei O albatroz
azul, eu tinha em mente um livro
grandão e comecei a escrever com
pegada de um romance grande.
Mas no meio do caminho, o livro
se recusou a ser grande e se revelou
pequeno. Nunca sei direito
o que vai acontecer.
Como classificá-lo, romance
ou novela?
Romance, mas não estou muito
certo. Não entendo nada de literatura.
Sei que li muito. Mas
quando sai um livro pequeno, eu
fico satisfeito porque pelo menos sei
que as pessoas vão ler. Suspeito que
se mente muito no meio literário.
São poucos que realmente leem um
livro grande. Só que O albatroz azul ainda tem o defeito de ter parágrafos longos, porque eu sei que os livros mais lidos são geralmente pequenos e de parágrafos curtos.
Como surgiu a história do avô
Tertuliano? Foi inspirada em
alguém da Ilha de Itaparica?
Não sei da onde veio esta história.
Tenho idade para ter neto, mas
ainda não tenho. Não tenho esse
negócio de inspiração. Claro, Tertuliano pode até existir em Itaparica,porque é um personagem
verossímil. Já aconteceu de me falarem
que fulano, que foi a inspiração para um personagem meu, não é bem assim como descrevo. Não fico pensando na vida de ninguém. Talvez o personagem esteja em meu inconsciente, mas nunca
saí por aí tomando notas e pegando
alguém como modelo.
Por que a constante presença de
Itaparica em sua obra?
Não sei. É minha terra, quanto
mais velho, mais eu fico apegado a
ela. A ilha mudou pouco, a casa
onde nasci ainda está lá.
O senhor já afirmou que, antes
de escrever um livro, primeiro
pensa no título, na dedicatória,
depois na epígrafe.
Foi assim agora?
Sim, mas não me lembro da onde
tirei O albatroz azul, mas quando fui escrever estava lá. Da mesma forma, quando escrevi Viva o povo brasileiro, o título era supostamente baseado em um episódio vivido por meu avô durante o Estado Novo. Mas não me lembro, um dia escrevi o título e comecei a escrever o livro. No meio para o fim do romance mas posso estar chutando eu já sabia qual seria o papel do albatroz azul no livro.
E a enigmática epígrafe
Ninguém sabe ?
Acho que de certa maneira essa
frase sintetiza o tema do livro. Tem
um nascimento de uma criança de
cu pra lua aqui é palavrão, mas
em Portugal a expressão é perfeitamente
usável em qualquer ambiente
e a história da vida de
Tertuliano que muda com a chegada
do neto. Acho que a epígrafe
se justifica porque o livro é um
pouco sobre a inutilidade de querer
criar um sentido para a vida, para a
existência ou criar uma relação de
casualidade entre um fato e outro. É
muito comum pessoas afirmarem
que alguém está sofrendo um castigo
divino. Geralmente ninguém
enfrenta um castigo, mas as consequências
dele.
Tertuliano vê um siri mudar de
casca e em seguida uma pedra
com a alma de holandês fala
com ele. Alguma relação com
o poleiro de almas que o senhor
criou em Viva o povo brasileiro?
É a primeira vez que me ocorre a
questão. Se tem a ver, será na minha
cabeça. Mas por que uma pedra não
falaria? Você pode provar que as
pedras não falam? É perfeitamente
possível você estar em um determinado
estado de espírito e achar que
a pedra falou com você. Talvez não
literalmente. A própria existência da
pedra pode dizer alguma coisa e
dialogar com sua existência, eu sei lá.Quanto aos holandeses, eles estão
presentes na história de Itaparica.
Desde que soube que seu primeiro
neto homem ia nascer,
Tertuliano tem a certeza de que
sua vida vai mudar e de que sua
morte está próxima. Por que
todo esse determinismo do
personagem?
Sua certeza vem das crenças que
adquiriu ao longo da vida. Tertuliano
é considerado um homem
sábio, mas na verdade sua sabedoria
não alcança a sabedoria divina. Nesse
sentido lembra um pouco o Livro
de Jó, da Bíblia. Mas não tive a
intenção de fazer uma paráfrase.
Inicialmente o leitor pode pensar
que a história será sobre o neto até
eu pensei nisso - mas não é. É sobre
a mudança de vida do avô, que no
final já não tem tanta certeza assim,
só da morte, a qual não encara como
algo terrível, e sim natural.
Qual é a relação entre os nomes
dos personagens, sempre emblemáticos
como Raymundo
Penaforte, e a trama?
Escolhi nomes que na época
estavam na moda. No interior, na
década de 60, era muito importante
escolher o nome para o descendente.
O livro é simplesmente uma
visita a um universo que você conhece
mas não frequenta, que não
lhe é estranho mas ao mesmo tempo
não é seu universo, um universo de
valores, de crenças. Nós todos da
chamada cidade grande e deste
tempo nos esquecemos de dar importância
à escolha do nome do
filho, como Tertuliano deu.
O livro é uma tentativa de
retratar o tipo brasileiro em
sua essência?
Não escrevo com intenção nenhuma
de retratar ou defender
uma tese, apenas escrevo ficção. É
fácil depois do livro escrito relacionar
com alguma coisa, mas a
princípio não penso nisso. A literatura
é sempre de quem lê, não
posso controlar o que as pessoas
interpretam do livro.
Seu último romance, Diário do
farol, saiu em 2002. Por que a
demora em publicar outro?
Quando assinei o contrato com a
Nova Fronteira, pensei em um livro
sombrio, terrível. Comecei a
escrever um sobre a cabeça de um
sujeito. Mas o trabalho sofreu muitas
interrupções. Livro desanda com
o tempo, principalmente romance.
Se você começa um romance e
para por dois ou três dias, não
aguenta mais os personagens, fica
sem embocadura, e isso aconteceu
não sei quantas vezes. Acho
que até já escrevi outro enquanto
estava devendo este.
O senhor já afirmou que não
sofre de bloqueio criativo. Mas
que, com o passar dos ano, os
livros vão saindo com mais dificuldade. Que tipo de dificuldade
é essa?
Escritor escreve com dificuldade,
quem escreve com facilidade é orador.
Rubem Fonseca acha uma lauda
por dia muito. Há uma brincadeira
de criar unidades com alguns
escritores. Dizem que Graham Greene
escrevia 500 palavras por dia, já
Virgínia Woolf escrevia de mil a
1200, por aí. Eu costumo escrever
um conrad, de Joseph Conrad, que
escrevia 800 palavras por dia. Jorge
Amado já dizia: Quando mais
velho fico mais devagar sai , e é
verdade. Não sei se é a própria
idade. Ou sei lá o que é!
Em 2007, o senhor foi para a
Objetiva, depois de ter ficado
na Nova Fronteira por
mais de 20 anos. A mudança
foi muito traumática?
Fiquei sabendo que a Nova
Fronteira tinha sido vendida pelo
jornal e tomei um susto, nem sabia
quem tinha comprado. Depois de
mais de 20 anos de casa, fiquei
chocado, dei uma de marido enganado,
fui o último a saber. Primeiro,
a Nova Fronteira foi vendida
de um jeito, depois foi vendida
de outro, mudou até de endereço.
O senhor quis trabalhar com
sua equipe antiga da Nova
Fronteira?
Trabalhar com a Izabel Aleixo
foi minha escolha, porque já conhecia
o trabalho dela.
Um escritor trocar de editora é
cada vez mais comum, embora
não sejam transferências milionárias
como a de jogadores
de futebol. Como o senhor vê
essas mudanças?
Acho que nenhum escritor gosta
de mudar de editora. Só pelo dinheiro,
claro, porque escritor ganha
mal no Brasil. Se eu fosse o mesmo
sucesso nos Estados Unidos, eu já
teria sido independente.
O que o senhor acha das recentes
mudanças no mercado
editorial com a chegada de
grupos estrangeiros e a concentração
de editoras em
grandes grupos?
É um fenômeno que tem acontecido
no mundo inteiro. O problema
não é serem empresas estrangeiras,
mas serem grandes empresas
que transformam o mercado
editorial em algo que ele não é. A
relação com o autor deixa de ser
pessoal e afetiva para ser impessoal.
Da mesma forma como as grandes
gravadoras que se livram de artistas
bons que não vendem, as editoras
vão dificultar o caminho para os
autores iniciantes, por causa da exigência
de dar grana. Mas acho que
sempre haverá espaço para a pequena
editora, que ainda mantém
esse relacionamento com o autor.
O que é um bom editor para
o senhor?
Um bom editor deve conhecer
seu ramo bem, ser um homem
letrado que possa transitar com
facilidade entre o mundo dos artistas
e o mundo dos negócios.
Ainda acho que a relação entre
autores e editores deve ser uma
coisa muito pessoal, específica para
cada tipo de autor.
Este é o primeiro romance que
o senhor escreve depois de ter
parado de beber. A rotina e a
disciplina da escrita mudou
muito em função disso? Sabe-se
que senhor gostava de pentear o
texto enquanto bebia uísque.
Eu estou sem beber, mas não digo
que nunca mais vou beber. Birita
não ajuda a escrever. A não ser que
seja um poeta mais livre, com verso
mais espontâneo, aí sim acredito
que possa ajudar. Mas sentar e
cumprir a disciplina de um romance
não tem nada a ver com
bebida.
O albatroz azul
João Ubaldo Ribeiro.
Nova Fronteira.
240 páginas. R$ 39,90