Saul Bellow cria romance sobre conflito do indivíduo com a sociedade

Gustavo Bernardo, Jornal do Brasil

RIO - As aventuras de Augie March, de Saul Bellow, publicado originalmente em 1953, pode ser considerado um Bildungsroman à americana. O termo alemão marca a força do gênero na literatura alemã desde Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, de Johann Goethe, publicado em 1796, mas podemos traduzi-lo para romance de formação . Nesse gênero de narrativa, mostra-se o desenvolvimento moral e psicológico de um personagem da infância à maturidade. Falar em moral, porém, já leva ao perigo de um texto moralista e edificante que comprometa a qualidade literária, por definição ambígua. A ficção edifica , sim, mas uma outra realidade que, para bons leitores, parece mais real do que a realidade mesma.

O romance de Bellow não corre esse risco. Ao contrário, tematiza o conflito do indivíduo com o mundo em geral, com a sociedade burguesa em particular. Segundo Robert Davis, trata-se de um Wilhelm Meister dos anos de depressão . Através da narrativa em primeira pessoa, dá voz ao individualismo, ou seja, ao primado da subjetividade contraditória frente à consolidação da sociedade burguesa, sociedade esta que tem ampliado em muito o poder da espécie humana contra a natureza, ao mesmo tempo em que reduz drasticamente a esfera de ação de cada indivíduo. Para denunciar e enfrentar este encolhimento da liberdade pessoal, o narrador só podia ser um pícaro ardiloso como Augie, que aprende desde pequeno, com a avó russa, a contar mentiras a fazer ficção para abrir o seu caminho.

A primeira frase do romance é ao mesmo tempo um manifesto político, uma declaração de princípios e uma poética: Sou americano, nascido em Chicago Chicago, aquela cidade sombria e faço as coisas do jeito que aprendi sozinho a fazer, estilo livre . As coisas são tanto as do personagem quanto as do escritor, preconizando a experiência e o risco permanentes quer para a vida quer para a literatura. Mas quem diz sou americano é o filho de uma família judia pobre recém-imigrada e devidamente apavorada com o novo mundo. Como lembra Christopher Hitchens no prefácio desta edição, os imigrantes chegavam não para abrir as asas, mas sim para se adaptar, se ajustar, se enquadrar . Ao dizer sou americano , o protagonista levanta a cabeça e abre, senão as asas, o peito, e desde o primeiro movimento.

Ao mesmo tempo, julga sem pudor a cidade em que nasceu, tomando-a por metonímia da América: o novo mundo não seria menos sombrio do que o velho mundo. Por isso ele se sente à vontade para quebrar regras e desobedecer normas, desenvolvendo duas capacidades aparentemente contraditórias: a de amar e a de ironizar. Não à toa um dos mestres que encontra pelo caminho, como sói acontecer nos romances de formação, lhe diz uma bela frase: Se você pensa, o menor dos seus prêmios de consolação é o mundo .

Esse mestre, Einhorn, um aleijado trapaceiro, é o filósofo de que Augie precisava na sua caminhada. Faz parte de uma longa galeria de personagens secundários do romance, muitos deles antológicos, traduzindo a obsessão do escritor por abundância de detalhes, acontecimentos e caracteres. Segundo Philip Roth, outro iconoclasta exemplar, este romance transformou Saul Bellow numa espécie de Hieronymus Bosch das palavras, mas um Bosch otimista e sem lição de moral que detecta, mesmo nas artimanhas ardilosas de suas criaturas, o mais humano e o mais arrebatador. Toda contradição o estimula, porque a multiplicidade é uma diversão.

Se o romance não é moralista nem se pretende propriamente realista, então podemos vê-lo como filosófico, desenvolvendo no entanto uma filosofia das sombras, das fronteiras, dos corredores, dos quartos dos fundos numa América à beira do crash. Essa filosofia, acelerada e pletórica como o próprio protagonista, parece adequada para aquele país naquele momento.

Como tudo o que é pletórico, entretanto, esse imenso livro, com suas 700 páginas, mostra-se inacabado, o que todavia é uma de suas maiores qualidades. No seu longo caminho, Augie não encontra nem a si mesmo nem qualquer transcendência. A alegria meio amarga e meio irônica com que caminha, porém, o deixam e ao leitor com a convicção de que todas as conquistas são possíveis, porque sucesso e fracasso são simplesmente nomes diferentes para a mesma coisa.

* Professor de teoria da literatura na UERJ e autor dos romances A filha do escritor e Monte Verità.