Duílio Gomes, Jornal do Brasil
RIO - O escritor americano Gore Vidal, ao comentar na revista The New Yorker o atentado de 11 de Setembro, que se deu numa terça-feira, citou o Alcorão. É que, segundo ele lembrou, foi numa terça que Alá criou as trevas. Tampouco me surpreendi , emendou ele, ao saber que, apesar dos aproximadamente sete trilhões de dólares que gastamos desde 1950 naquilo que é eufemisticamente descrito como nossa defesa, nenhum aviso antecipado foi dado pelo FBI, pela CIA, pela Agência de Inteligência de Defesa ou por qualquer outro organismo, e que nenhum caça americano se ergueu à altura da ocasião .
É desse polêmico e muitas vezes radical ensaísta, contista e romancista de 84 anos, confessadamente homossexual, que a editora José Olympio, em sua coleção Sabor Literário, está lançando Sede do mal, uma coletânea de contos traduzidos por Marcos Santarrita e apresentada por Marcos Soares, professor de literatura inglesa e norte-americana da USP. Ele disseca, para o leitor, o perfil do autor, integrante da geração de J. D. Salinger e Norman Mailer, e cujas posições políticas controversas têm lhe granjeado montes de inimigos.
Filho de pai militar e nascido na Academia Militar de West Point em 1925, Gore Vidal sempre trabalhou no sentido de derrubar os pés de barro de mitos e heróis americanos. Marcos Soares enfatiza o gosto pelo debate, escândalo e provocação que sempre marcou a carreira do autor, também um apaixonado pelo cinema. Escreveu vários roteiros, entre eles o que gerou De repente, no último verão, de Joseph Mankiewicz (baseado na peça de Tennessee Williams) e o de Paris está em chamas? , de René Clement. Vidal fez também o papel do senador Paiste no filme Bob Roberts, de Tim Robbins.
Outro escritor americano, o também homossexual Truman Capote, sempre fez a linha política intransigente de Vidal e, como ele, escreveu roteiros para cinema e participou, como ator, de alguns filmes. A sangue frio, baseado num de seus livros mais célebres, entrou para a galeria dos ícones do cinema mundial. E, para alinhavar a lista de autores gays politizados e ligados ao cinema, é fundamental citar o francês Jean Genet, que teve vários de seus romances e peças de teatro filmados e sempre uniu posturas políticas a, digamos, prazeres transgressivos. Genet, que mereceu um livro inteiro sobre sua obra escrito por outra celebridade literária francesa, Jean-Paul Sartre, dedicou boa parte de sua vida às causas da Argélia e da Palestina.
Voltando a Gore Vidal, ele é autor de uma longa bibliografia que ostenta, na ficção, livros como A cidade e o pilar, Messias, Era dourada, além das memórias de Palimpsesto. Morou, entre 1947 e 1949, na cidade de Antigua, na Guatemala, onde escreveu A cidade e o pilar, que chocou os leitores mais conservadores pelo tema da homossexualidade, que perpassa todo o romance. O livro Williwaw foi escrito durante a Segunda Guerra Mundial a bordo de um navio.
A crítica sempre viu, neste Sede do mal, traços autobiográficos do autor, já que alguns contos do livro abordam, de frente, a homossexualidade. Ela está presente nos relatos de personagens adultos. As histórias que se situam na infância ou adolescência fogem ao clima inocente que esse tipo de prosa costuma trazer e se banham deliberadamente no mal do título. Um exemplo é o conto O tordo , uma perturbadora história de dois meninos, colegas de escola, com tendências agressivas. Gostam de conversar sobre violência e tortura, organizar sociedades secretas e encorajar lutas de gangues na escola. Nas horas vagas, roubam pequenos objetos nas mercearias. Essas duas crianças, fascinadas pelo mal, um dia encontram na estrada que os leva à escola, um tordo com uma asa quebrada, debatendo-se fracamente e tentando voar. Quando um dos meninos apanha uma pedra, o leitor percebe claramente o que irá acontecer à ave ferida. O mal deliberado e gratuito está presente, ao longo do livro, em contos que como intui Marcos Soares produzem mais perguntas que respostas .
Essas perguntas o leitor poderá perceber em contos como O troféu Zenner , Páginas de um diário abandonado , As damas na biblioteca ou Um momento de louro verde . Este, que se inicia na cidade de Washington num dia de posse presidencial, leva o personagem narrador aos seus dias de infância. Ele, quando menino, foi abordado um dia, perto de sua casa, por um homem de cabelos prateados e olhos negros que trazia vários galhos de louro nos braços. O estranho queria saber se ele morava naquela casa. O menino respondeu que sim. O outro lhe revelou ter morado também naquela casa quando tinha a sua idade e que fora o seu avô quem a construíra. O garoto retruca que havia sido o avô dele quem a construíra, quando ele nascera. O final do conto é surpreendente porque os personagens e os pronomes se trocam. Surpreendente é também o lirismo do conto, com achados do tipo o planeta Vênus, um círculo prateado num céu cinzento, varou a borda do anoitecer .
Marcos Soares lembra ao leitor que a ficção de Gore Vidal floresceu nos anos 60 e tem suas origens na eleição de John Kennedy (será que é a ela que o conto Um momento de louro verde se refere?). Os romances do autor estão impregnados de história e política, como Washington D.C., Império e Lincoln.
A política atraiu Vidal de tal forma que ele próprio se candidatou à presidência dos EUA na década de 60. O sucesso na literatura não se repetiu nas urnas. É ainda o apresentador quem esclarece: Ele alimentará ambições de se canditatar à vida pública, inicialmente como senador, mas com vistas à presidência (suas tentativas nesse âmbito, no entanto, foram fracassadas : as candidaturas em 1960 e 1982 reuniram um número considerável de votos, mas insuficientes para a vitória) .
Foi na literatura que Vidal realmente se realizou e se desdobrou em transigência e inventidade.