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Cone Sul mostra a cara com a peça uruguaia 'Un dios salvage'

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Macksen Luiz, Jornal do Brasil

PORTO ALEGRE - Pela proximidade geográfica e, de certo modo também cultural, em relação aos países do Cone Sul, o Porto Alegre em Cena mantém estreita relação com o teatro uruguaio e argentino, que tem se apresentado ao longo dessas 16 edições da mostra com espetáculos bem representativos da cena dos dois países. Este ano, são cinco montagens do Uruguai e três da Argentina, além da crescente e interessante presença do teatro chileno que, na atual temporada de festivais brasileiros, vem deixando grande curiosidade sobre a sua produção teatral.

A boa surpresa de Un dios salvage, a peça de Yasmina Reza, com afinados atores, não se repete em El último fuego, texto da alemã Dea Loher com direção do uruguaio Fernando Alonso. Mais um exemplar da dramaturgia de Dea Loher, que já escreveu texto com participação de elenco brasileiro, em que as questões de solidão, violência e desajustes se tocam através de personagens comuns ou marginalizados, incapazes de ultrapassar a sua condição existencial. Em El último fuego, a morte de uma criança desencadeia nas relações entre os direta e indiretamente envolvidos no acidente a exposição das falências de suas vidas. Em planos simultâneos, diálogos excessivos e cenas em tempos mortos, a narrativa se prolonga bem mais do que a autora consegue sustentá-la. Se o texto se mostra mais pretensioso do que a sua capacidade de ganhar consistência no palco, a montagem persegue a sua concretização cênica com o esforço de torná-lo degustável, ainda que seu sabor seja um tanto insosso. Os atores se movimentam como se criticassem suas interpretações realistas, que resultam apenas em formalização física e dramatismo de efeito. Já em Tercer cuerpo, texto e direção do argentino Claudio Tolcachir, que foi visto no Festival de Teatro de São José do Rio Preto, e fez temporada em São Paulo, é uma comédia bem urdida, que foge ao que se convencionou definir como espetáculo de festival . Os personagens reunidos por laços profissionais e afetivos se distribuem por três ambientes num cenário único e arranham com humor a condenação a vidas burocráticas. Sem maiores pretensões, camerístico, Tercer cuerpo faz rir com um humor atritante, que se desenvolve em camadas narrativas que se interpõem com extrema habilidade.