Bolívar Torres, Jornal do Brasil
RIO - Autor de bem-sucedido guia de obras fundamentais do cinema diz não seguir seu gosto pessoal
Em Alta fidelidade, filme de Stephen Frears lançado em 2000, o dono de loja de discos Rob Fleming, interpretado por John Cusack, não consegue passar 10 minutos sem classificar tudo em seu top 5, como As cinco maiores dores de cotovelo , Os cinco melhores empregos ou Os cinco músicos que devem ser fuzilados com a chegada da Revolução Musical . Caso o personagem resolvesse se lançar no mercado editorial, teria sucesso no filão que abarca livros como 1001 filmes para ver antes de morrer, de livro do crítico, produtor e acadêmico Steven Jay Schneider que, curiosamente, deixou Alta fidelidade de fora de seu top 1001. Pelo volume da lista, logo se vê que a empreitada ganhou dimensões épicas. Foi preciso a ajuda de 50 colaboradores, que resenharam as supostas 1001 obras fundamentais para a formação cinematográfica. O objetivo era formar um panorama geral do cinema mundial, usando critérios como inovação estética, polêmica no conteúdo, alta bilheteria ou prêmios importantes.
Da forma como pensamos este projeto, nossa tarefa principal era garantir que, qualquer que fosse seu gosto cinematográfico genérico ou num dia específico em que o espectador resolve experimentar algo diferente este livro pudesse ser um menu em que cada prato é sempre bom , explica Schneider, na introdução de seu guia.
Sucesso de público, traduzido para 25 línguas e com mais de um milhão de exemplares vendidos no mundo, a obra acaba de ganhar uma edição ampliada, com o acréscimo de mais filmes brasileiros. Injustiças foram corrigidas com a inclusão do mítico Limite, de Mario Peixoto, mas outras persistem. Como explicar o escandaloso esquecimento de O prazer, de Max Ophuls (filme preferido de Bernardo Berolucci)? Ou a preferência do insípido Crash de Paul Haggis ao perturbador Crash de David Cronenberg? E o desprezo às obras do francês Guy Debord, teórico máximo da sociedade do espetáculo? Com a palavra, Jay Schneider, que falou ao Jornal do Brasil durante sua visita à Bienal do Livro, onde comemorou os 40 mil exemplares vendidos até agora no Brasil.
O senhor se considera um obcecado por listas?
Não me considero obcecado apenas por listas. Sou mais um completista. Tento lembrar ou guardar na mente tudo que ouço e acredito ser especial sobre um livro ou filme.
De onde vem o prazer em listar coisas?
Acredito que seja uma maneira de tentar controlar e organizar o mundo caótico em que vivemos. Há cada vez mais coisas para ver e experimentar. As pessoas esperam que alguém os guie dizendo o que tem mais valor, o que merece atenção no tempo limitado que lhes resta.
A intenção era formar uma lista ampla, para um público variado. Mas e quanto ao valor em si da obra?Afinal, 'Top gun' foi incluído, mas há apenas um filme de Jacques Becker...
É preciso deixar bem claro que esta não é uma lista dos melhores filmes. Não quero ser a pessoa que recomenda ao mundo o que ver. Há muitos filmes interessantes que não entraram por diferentes razões. O que conta não é apenas o valor intrínseco da obra, mas a maneira como foi recebido e como se reflete na cultura popular.
Os filmes escolhidos não estão lá necessariamente pelo seu gosto pessoal, mas por critérios estabelecidos...
Sim, na medida do possível, tentei não dirigir pelo meu gosto pessoal.
Da lista final, há algum título que você pessoalmente não goste?
Como todo mundo, sou muito ligado a gêneros. Não me interesso muito por musicais, por exemplo. Não os assisto, não me identifico. Mas é claro que os musicais mais representativos precisavam entrar. A lista é um pouco para incentivar a assistir filmes dos quais temos certo preconceito. Mais ou menos como visitar um país estrangeiro, onde você é levado a comer uma comida que no começo te dá medo, mas pode se mostrar muito interessante. É sair da familiaridade e experimentar.
E quais você mais lamentou ter deixado de fora?
Gosto muito de filmes de terror. Gostaria de ter colocado mais filmes de George A. Romero ou John Carpenter. Também o primeiro Manhunter, do Michael Mann, além de mais filmes noirs.
Por que a ausência dos filmes de Guy Debord?
Quem?
Guy Debord..
Pode escrever, por favor... (Lê o nome escrito num papel) Ah, sim, Gai Debord (repete com forte sotaque americano). Por questões de espaço, há algumas omissões. É uma lista orgânica, renovada a cada nova edição. Com certeza, Gai precisa entrar nela. Talvez na próxima.