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Depois das crianças, as mulheres

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Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

VENEZA, ITÁLIA - O cinema iraniano atravessou os anos 90 associado à imagem de crianças sofridas e carismáticas e todo tipo de alegoria ligadas a elas. Women without men, de Shrin Neshat, exibido ontem na competição do 66º Festival de Veneza, confirma que há uma nova leva de cineastas naquele país determinada a explorar, desta vez mais abertamente, questões sociais e políticas decisivas para a presente situação da região, palco de um levante popular nos momentos que se seguiram à eleição presidencial, em junho passado.

Ambientado em 1953, nos bastidores do golpe de estado apoiado pela CIA (o serviço secreto americano) e o Reino Unido, que derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh e recolocou o xá no comando da nação, o filme descreve o destino de quatro mulheres que resistem à opressão masculina, religiosa e política. Nesse sentido, o projeto de Shirin se alinha com os propósitos de Persépolis, animação co-dirigida pela conterrânea Marjane Satrapi, sobre as experiências da autora durante a Revolução Islâmica (1979).

Adoro Marjane, ela é uma grande amiga minha. A diferença entre o filme dela e o meu é que Persépolis é inteiramente autobiográfico. No meu caso, uso a vivência de outras mulheres para expressar os meus dilemas comparou Shrin, videoartista radicada na França, que faz sua estreia na direção de filmes. Normalmente, produzo trabalhos destinados a galerias e museus. Mas o cinema surgiu como uma outra veículo para canalizar minha sensibilidade, e eu queria muito contar essa história.

Women without men é inspirado no livro homônimo de Shahrnush Parsipur, banido no país desde sua publicação sua autora fora presa na época e hoje mora na Califórnia. Entre as personagens estão Fakhri (Arita Shahrzad), mulher de um general insatisfeita com o casamento e que precisa reprimir uma antiga paixão, Zarin (Orsi Tóth), uma jovem prostituta, Munis (Shabnam Tolouei), que vive com o irmão ultra conservador, e Faezeh (Pegah Ferydoni), moça que nutre paixão pelo irmão de Munis e ignorada o clamor popular que vem das ruas de Teerã.

Rodado no Marrocos, o filme é, basicamente, interpretado por expatriados.

Em 2004, fui obrigada a deixar o Irã porque comecei a ter problemas com o fato de não ser muçulmana contou Shabnam.

O filme de Shirin confirma o caráter histórico do papel da mulher iraniana na resistência contra forças conservadoras no país.

Democracia e liberdade estão no coração desse filme, que representa a nossa luta contra regimes opressores, no passado e no presente. Os ditadores mudaram, mas a luta continua. Algumas vezes, podemos parecer desesperançosos, mas não vamos deixar nossos sonhos morrerem avisou a artista de 52 anos.

Il grande sogno, de Michele Placido, a terceira produção italiana da competição, também fala de sonhos e ideais desejados, só que temperados com grandes doses de nostalgia e romance. O filme recupera o impulso revolucionário da juventude italiana de 1968, recriada a partir das lembranças e experiências do próprio diretor. O personagem central é um jovem policial (Riccardo Scamarcio) destacado para se infiltrar na Universidade de Roma e espionar os estudantes considerados subversivos. Só que o sujeito acaba se apaixonado por uma das revoltosas (Jasmine Trinca) que, por sua vez, está de olho em um dos líderes do movimento estudantil (Luca Argentero).

Assim como o tira da história, Placido lutava para ser ator, na época, e acabou seduzido pelo espírito revolucionário. O triângulo amoroso e o clima de mudança lembram Os sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci.

Quando começamos o roteiro de Il grande sogno descobrimos que Bertolucci estava fazendo um filme sobre 1968. Decidimos esperar para ver o que aquilo ia dar. Só voltamos ao projeto dois anos atrás. A diferença mais marcante entre os dois filmes é que o de Bertolucci é protagonizado por jovens burgueses, nós estamos mais para os camponeses brincou Placido

O diretor demonstrou extrema irritação quando uma repórter confrontou suas inclinações esquerdistas com o fato de seu filme ter sido produzido pela Medusa, companhia que faz parte do império de comunicação do primeiro ministro Berlusconi.

Você queria que eu tirasse dinheiro de onde? bradou, em meio a muitos impropérios.

A volta dos mortos-vivos

Provando, mais uma vez, a completa falta de preconceito contra gêneros, a competição de Veneza também exibiu ontem Survival of the dead, o mais novo trabalho de George A. Romero, um dos maiores diretores de terror da história. Quarenta anos depois do clássico A noite dos mortos vivos (1968), seu primeiro filme, o diretor segue demonstrando carinho especial pelo universo dos zumbis, criaturas recorrentes de sua filmografia. Desta vez, os mortos que andam estão no centro de uma batalha entre dois rivais de infância, que divergem do modo como os zumbis devam ser tratados: O'Flynn (Kenneth Welsh) prega a eliminação; Muldoon (Richard Fitzpatrick) acredita que devam ser poupados, até que uma cura para eles seja encontrada. Durante todo o filme os dois personagens tentam impor sua visão de mundo, trocando muitas balas, em meio a um visual que lembra um faroeste. Novamente, Romero mortos-vivos canibais como metáfora para o momento em que vivemos.

Não pensei em um conflito específico. Podia ser a Irlanda do Norte ou o Oriente Médio, ou mesmo os Estados Unidos, onde há muito racismo. Queria falar de discriminação e da inabilidade do homem de esquecer inimizades disse o cineasta de 69 anos.