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De volta aos anos 60

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Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - Nos anos 60, o pequeno Arnaldo Antunes cresceu em meio aos três acordes dominantes da chamada música jovem , com seus hits fáceis e efêmeros, suas canções imediatas. Na vitrola e na TV, histeria, inocência e despreocupação acompanhavam a efervescência do twist, hully gully, surf music, jovem guarda, orgãos eletrônicos e trilhas de seriado de faroeste. Um clima ingênuo, muito diferente do da década de 80, quando Arnaldo e os Titãs passou a pôr fogo nos programas de auditório, expressando, assim, o cansaço do mundo e o desencanto da chamada década perdida.

Filho do som jovemguardista, mas produto da tropicália, do punk e do pos-punk, Antunes é alimentado por heranças múltiplas, como comprova a hibridismo dos discos de sua carreira solo, iniciada em 1992. Mas em Iê iê iê, seu décimo título, o cantor e compositor fecha com suas raízes. Rendendo-se ao charme do trabalho conceitual, recupera em 12 músicas inéditas as sonoridades e os trejeitos que povoaram sua infância.

O iê iê iê é uma espécie de protorock, o início de tudo, com aquelas canções bem melódicas que mais tarde ficariam mais pesadas explica o paulistano de 48 anos. Por um lado, eu queria revisitar o material produzido nesta época em que me criei. Mas pode-se dizer que havia um impulso da minha parte, já na época dos Titãs, de me inserir nesse mundo. Quando cheguei, nos anos 80, havia uma grande diversidade. Nós queríamos curtir esse universo da música popular. Tanto que estávamos sempre fazendo programas de auditório.

Respiração de uma época

A convivência com a diversidade é mesmo inevitável no trabalho do compositor, poeta e artista visual. Dessa vez, porém, partiu para uma sonoridade peculiar e coesa, que reúne num mesma ideia musical um tratamento que Antunes já vinha buscando em suas últimas composições. Iê iê iê, aliás, marca a volta a um som mais dançante, que incorpora novamente bateria às canções, depois de uma breve ausência do instrumento.

Sabia desde o início que queria gravar um álbum sessentista e isso direcionou as gravações lembra Antunes. Sempre me orientei pela mistura, mas desta vez quis um disco de gênero, que apesar de ter algumas variações rítmicas obedece um campo de referências. Gravamos todo o CD com uma mesma formação, composta por músicos que já vinham me acompanhando nos trabalhos anteriores, e isso resultou num longo processo em busca de um conceito.

Não por acaso, Antunes convidou Fernando Catatau, vocalista e guitarrista do Cidadão Instigado banda que mistura ritmos nordestinos com a melancolia da música popular dos anos 70 para dar um clima ao mesmo tempo retrô e moderno ao disco.

Sempre admirei o Cidadão Instigado e sabia que Catatau tinha afinidade com o que pensava para o CD diz o cantor e compositor. A banda dele tem a ver com o timbre que eu procurava: algo que soasse como iê iê iê, mas também como atual.

Associada aos programas de auditório da TV Record, exibidos entre 1965 a 1968, a expressão iê iê iê é usada hoje para resumir como um todo a cena da música jovem da época, cujos ritmos, signos e timbres são absorvidos em faixas inéditas algumas compostas com velhos parceiros como Marisa Monte, Carlinhos Brown, Liminha e Paulo Miklos como Iê iê iê , Aonde você for e Envelhecer.

Nem todo o conteúdo, porém, é iê iê iê puro. A variedade rica aparece no funkeado de Vem cá, no rock de O que você quiser e na balada faroeste Um kilo.

Seja pelo timbre ou pelo tipo de composição, o gênero sobrevive na música de hoje afirma Antunes. A influência do gênero pode ser notada em músicas atuais, mesmo naquelas cujas letras não têm nada a ver com o espírito daquela época. Assim como o rock, virou uma denominação que abrange várias tendências.

A revisão do passado não pode ser confundida, porém, com um assalto ao museu sessentista ou um acerto de contas com um cadáver. Não se trata de um esforço de arqueologia ou necrofilia musical, e sim de um diálogo com um gênero que alimentou e ainda alimenta a música popular no mundo inteiro. Se há um abismo separando os tempos inocentes e a explosão melancólica da música pop pós-revolução sexual em um imenso caldeirão de influências cujo o pedido de socorro de John Lennon em Help, surgiu como uma primeira pista Antunes tenta construir uma espécie de ponte, revitalizando o estilo numa linguagem mais contemporânea.

A ideia era transmitir a respiração de uma época, mas sem nostalgia. Apesar de ser um disco de gênero, é um disco meu, ou seja, traz minha visão de mundo. Os contrastes vão aparecer, principalmente nas letras, que trazem questões modernas.

A estética do período também deve ganhar o palco quando Antunes começar sua turnê, no dia 12, com figurino do estilista Marcelo Sommer e cenário de Márcia Xavier. A nova temporada de shows abre em Belo Horizonte e segue para Manaus (17), Belém (18) e Brasília (19). Ao todo, serão 17 apresentações. Além das composições do novo disco, o repertório terá releituras de clássicos da Jovem Guarda e uma versões rock do samba Vou festejar , de Jorge Aragão e Dida Noeci.

É claro que como o disco é mais dançante, haverá uma mudança de postura no palco.