Abertura do Festival de Gramado brinda Tomás Gutiérrez Alea

Danilo Saraiva, Portal Terra

GRAMADO - A abertura da 37ª edição do Festival de Gramado não poderia ser mais saudosista. O primeiro filme exibido no tradicional Palácio dos Festivais foi o clássico absoluto Memórias do Subdesenvolvimento (1968), do cubano Tomás Gutiérrez Alea (1928 - 1996). Projetado em sessão para pouquíssimas pessoas - porque a maioria dos convidados e curiosos que pagaram para entrar preferiram ficar do lado de fora, no saguão -, o filme foi eleito a melhor película iberoamericana no inquérito mundial realizado para eleger as 100 melhores obras da categoria, no ano passado, em Madrid.

Se a intenção real dos organizadores com a exibição deste filme foi conscientizar o público, pode-se afirmar que tal tentativa saiu quase fracassada. Só ficaram na sala os já veteranos críticos especializados e realizadores, em sua maioria. Esses já devem ter visto essa obra várias vezes - ou pelo menos deveriam ter visto.

Em Memórias do Subdesenvolvimento, Tomás Gutiérrez Alea mostra uma visão ora atenciosa ora crítica da revolução de Fidel Castro. Os eventos do filme são mostrados por Sérgio, homem de 38 anos, que fica sozinho em Havana, depois que sua família se muda para os Estados Unidos. É pelos olhos de Sérgio que Gutiérrez mistura realidade e ficção, com trechos de documentário - o roteiro foi baseado num romance de mesmo nome de Edmundo Desnoes.

O triunfo de Gutiérrez nesse filme foi conseguir trabalhar com um roteiro imprevisível, abusando de suas limitações para concluir a obra da forma mais realista possível. Se não fosse por algumas sacadas - que hoje são óbvias - seria quase impossível discernir a ficção e o documentário na fita.

Como era de se esperar, Memórias do Subdesenvolvimento foi muito aplaudido pelos poucos presentes. Escolha certa para abrir um festival repleto de altos e baixos.