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Artigo: "Nós, os divulgadores dos divulgadores, não aturamos datas"

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Mario Marques, Jornal do Brasil

RIO - Faça algo de relevante na vida: um disco, um livro, uma obra de arte, um filme, uma peça, invente um troço para o futuro, seja alguém, construa uma revolução, seja importante e influente, inove. Depois espere, morto ou não. O tempo e os assessores de imprensa, gerentes de marketing e oportunistas profissionais se encarregará de informar à sociedade das datas completas (e principalmente incompletas), efemérides ou não, de seu feito. Só esta semana celebram-os 15 anos de Da lama ao caos, o primeiro disco de Chico Science; os 90 anos do Leblon e os 25 anos de Tubular bells, o clássico disco do inglês Mike Oldfield. Não precisa ser data cheia mais, não. Já recebi dezenas de releases vendendo alguém ou algo que completasse 22 anos, 37, 81. E isso se compra, acredite. É um saco. O jornalismo atual se debruça mais nas datas comemorativas do que na busca por algo efetivamente novo. Viramos os divulgadores dos divulgadores.

Mas, OK, está aqui o disco de Oldfield. Sua gravadora, antenadíssima, pôs o álbum no Brasil com um ano de atraso. Então, nós, brasileiros, vamos comemorar os 26 anos de Tubular bells ah, tá, eles estão contando a partir do lançamento no Brasil, 1984. Deus.

No fim da década 70, começo da de 80, a suíte dividida em duas partes de 25m36s e 23m20s era uma delirante e psicodélica viagem, enrolhada numa garrafa de rock progressivo. Bebida até pelo clássico do terror O exorcista. Oldfield engendrou uma usina de instrumentos a seguir um mantra melódico que é manipulado entre guitarras, sintetizadores, percussões exóticas, climas, quebras de climas, tudo gira e volta para o mesmo lugar. É um disco revolucionário, sim. Que teve até continuação, o Tubular Bells 2, de 1992, Tubular bells III, de 1998. E uma inacreditável revisão feita em 2003, em 5.1 surround sound, para... marcar os 20 anos do disco! Que deveria ser reverenciado a todo tempo e temperatura, e não só a bordo de uma simples data.

Em 1985, lá está o moleque chato, eu, com o vídeo ao vivo de Oldfield (um registro de apresentação de 1978 de Oldfield), a reconstrução ambiciosa do disco, sem tirar nem pôr, registro memorável de um concerto de verdade, ainda sem as maravilhas da tecnologia. Que permitem que sons de violão e pequenos detalhes de sintetizadores pré-gravados adornem os shows do Coldplay atualmente. A fita VHS passa de mão em mão, com reações entusiasmadas. Estávamos mesmo diante de algo importante. Que poderia ser revisto com mais louvações e mais distanciamento crítico depois. E que não precisava ser tão explorado por Oldfield como tem sido até hoje.

Outro excelente lançamento do compositor, o belo Ommadawn, de 1975, está escondido lá atrás, sem celebrações. Embora tenha sido reeditado cinco vezes.

Nas reuniões de marketing de gravadoras, gasta-se muito tempo discutindo reedições históricas de discos. Muito por isso temos passado a década assistindo à tanta velharia ao vivo e testemunhando uma paralisia artística que insiste em nos mediocrizar.

Sobre a mesa, no meu e-mail, entre discussões, há um punhado de celebrações comemorativas para este ano. Fico pensando mais à frente, como se gastará papel e bytes com celebrações. O que será que o jornalismo mundial fará diante de um ano de morte de Michael Jackson? E se os 15 anos da Copa do Mundo de 1994 (com o Brasil campeão) foram lembrados em todos programas esportivos recentemente, imaginem os 20, os 30, os 40, os 50? E os 50 da ida do homem à Lua? E os...? Ah, deixa para lá. Isso está muito chato.

Hoje faz exatamente 5 anos que minha filha Maria Antonia pôs sua professora em constrangimento absoluto e eu sem saber o que fazer. Na aula, em seu colégio em Niterói, Maria, então com 3 anos, sentava diante da tia, que propunha aos alunos revelar a profissão dos pais. Naquela semana, eu prometera a Maria que lhe compraria um cachorro. Ela queria um bichon frisé, por uma foto na internet. Perguntou-me por vezes o que era um bichon. E eu, gaiato e politicamente incorretíssimo, fiz um remelexo desconexo e respondi que era um cachorro boiola. Ela então me perguntaria o que era boiola, eu despistei e mudei de assunto. Pois começou a aula. Serginho, o que seu pai faz? . Hum... ele é engenheiro! . E o seu, Claudinha ? É cozinheiro do restaurante na esquina da minha casa! . E o seu, Maria Antonia? . Meio perdida, em choque, olhando para o teto, sem resposta, confusa, Maria achou a saída que dava, fazendo uma identificação surreal entre mim e seu futuro cachorro: Meu pai é boiola! . As crianças riam, entre não saber o que é e o que dizer, a professora não disfarçaria a gargalhada, Maria pôs-se a chorar e no dia seguinte fui parar defronte à diretora para explicar a história toda. A pedido da Maria.

Lembrei-me da data exata porque foi um dia depois do Dia da Avó. Neste último domingo.

Hoje pela manhã recebi uma ligação de uma assessora de imprensa: vendendo-me uma matéria sobre os 23 anos do, do, do... deixa para lá. Respiro fundo, desligo e começo a escrever neste espaço. Celebrando (quase) 40 anos de mau humor.