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'Coração Vagabundo' acompanha viagem musical de Caetano

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REUTERS

SÃO PAULO - 'Coração Vagabundo', um documentário que se propõe a ser 'uma viagem musical com Caetano Veloso', abre com a tela em negro e um letreiro explicando que, em 1968, o músico foi vaiado durante uma apresentação de 'Proibido Proibir' em um festival. No áudio, ouve-se o som original da época: o cantor discutindo com o público e dizendo que eles não entendiam nada. Sua voz é quase encoberta ao som de tantas vaias.

Dessa abertura, o diretor corta para o presente, quando, num quarto de hotel, Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano e produtora do filme, 'chama' a câmera para segui-la e abre a porta do banheiro, onde o músico está nu, tomando banho. Certamente, o diretor Fernando Grostein Andrade queria que essa nudez fosse tanto real quanto metafórica para seu documentário, que estreia em São Paulo e no Rio. Mas não é bem isso o que se vê na tela.

Por mais que a câmera o acompanhe incessantemente durante a turnê americana e japonesa para a divulgação do disco 'A Foreign Sound', o filme se ressente da falta de foco ao longo de seus 60 minutos. Ninguém espera que um documentário tão curto desvende a alma e a obra de seu retratado, mas um pouco mais de profundidade não faria mal algum a 'Coração Vagabundo'.

O Caetano contestador, que bate boca com o público para defender sua música, está apenas na memória registrada na abertura do filme. Agora, 'Coração Vagabundo' mostra que ele é um sujeito pacato, que sorri e interage com japoneses pelas ruas de Tóquio ou na porta de um templo budista.

A sombra do Caetano de 1968 é projetada muito discretamente, quando perguntado sobre uma polêmica envolvendo o músico Hermeto Pascoal e os elogios do baiano para a música norte-americana que, segundo ele, 'é a melhor do mundo'.

O que há de melhor em 'Coração Vagabundo' são as cenas do show de Caetano, quando canta músicas como 'Terra', com arranjos diferentes dos originais.

As apresentações em Nova York, Tóquio e Kyoto são cercadas de uma aura de glamour - mas não há um contraponto de como foi essa mesma turnê no Brasil. Nos bastidores, Caetano é tietado por brasileiros ilustres no estrangeiro, como Gisele Bündchen, e outros famosos no país, como a atriz Regina Casé.

A proposta declarada de Grostein Andrade era fazer um documentário intimista, um retrato quase em primeira pessoa do músico. Mas não se pode esquecer que a produtora do filme é a ex-mulher de Caetano, Paula Lavigne, e que o fim do casamento aconteceu durante as filmagens. A câmera flagra alguns episódios dessa separação, como o músico pedindo o telefone de Gisele Bündchen, numa possível brincadeira, embora comentários dela deem margem a dúvidas.

Entre os entrevistados, aparecem os fãs internacionais do músico, como David Byrne e o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que passa mais tempo elogiando a produtora Paula Lavigne do que comentando sua relação com Caetano - que aparece numa cena de seu longa 'Fale Com Ela' (2002).

Ao contrário de dois documentários recentes sobre músicos, 'Loki - Arnaldo Baptista' e 'Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei', que se aprofundam em seus personagens, 'Coração Vagabundo' é quase um filme institucional. Nele, o que vemos na tela é o Caetano Veloso que todos conhecem, sem muito acrescentar à imagem do mito que carrega e do qual parece não querer se despir.