Bolívar Torres, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Em 1923, o governo francês doou à Academia Brasileira de Letras uma réplica do Petit Trianon de Versailhes (construído como presente do Rei Luís XV à sua amante, Madame de Pompadour, e mais tarde oferecido a Maria Antonieta por Luís XVI), que no ano anterior abrigara o pavilhão do país na exposição internacional comemorativa do centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro. Em 2009, ano em que se comemora o Ano da França no Brasil, a Academia devolve o prédio aos seus donos originais, reunindo oito dos mais destacados intelectuais franceses em atuação nas áreas da filosofia, filologia, literatura, historiografia, antropologia e da crítica. Com abertura amanhã, o ciclo de conferências A França volta ao Petit Trianon traz pensadores como o historiador Roger Chartier, o linguista Xavier North e o filósofo Emmanuel Renault. O evento vem se somar ao ciclo de comemorações, que tem ainda a série de palestras A França na ABL, coordenado pelo acadêmico Alberto da Costa e Silva, com duração até 28 de julho.
Criada em 1897, segundo o modelo da Académie Française, a ABL volta agora a abrir seu espaço, no âmbito das celebrações nacionais do Ano da França no Brasil, para a visão francesa da contemporaneidade diz Cícero Sandroni, presidente da ABL e coordenador geral do evento. Francesa na origem, a ABL pretende homenagear nossa matriz, contribuindo significativamente para enriquecer o debate. Já que não é possível trazer de volta Maria Antonieta, trouxemos a inteligência da França.
As conferências focam nas relações entre as culturas brasileiras e francesas. O professor de filosofia Didier LaMaison discutirá qual modelo intelectual francês (o conservador de Versalhes ou o liberal da Revolução Francesa) influenciou o pensamento do Brasil. Já o linguísta e Delegado Geral da Língua Francesa do Ministério da Cultura e das Comunicações da França Xavier North discorrerá sobre os limites e as possibilidades de ser francófono nos dias de hoje.
Todos os palestrantes tiveram liberdade de escolha sobre os temas explica Sandroni. Acredito que formam um grupo restrito, representativo mesmo da cultura brasileira de hoje.
Influência musicais
Paralelamente às conferências, o ciclo A França na ABL, que iniciou no último dia 7, continua com palestras do professor Manuel Correa do Lago (As artes plásticas e a música: estilos que marcaram o Brasil), na terça, e da historiadora Mary Del Priore (Cafés, livrarias e cocotes - modismos e outras influências parisienses nos costumes brasileiros), dia 28. Lago vai abordar o impacto decisivo da música impressionista francesa, mais especificamente a de Claude Debussy, na arte brasileira.
A partir do fim do século 19 e dos primeiros anos do século 20, a música francesa tomou o lugar da italiana e da alemã em termos de influência diz Lago. Mas foi uma influência libertadora porque liberou maiores possibilidades, inclusive o despertar da própria consciência. A partir dela, a música brasileira começou realmente a olhar para as próprias raízes.
Mary Del Priore explicará a importância da França na disseminação da leitura no país.
Era comum a vinda de livreiros e editores franceses, que acabaram se tornando responsáveis pela circulação e popularização de autores como Balzac e Flaubert. Alugava-se livros e ensinava-se até crianças escravas a ler em francês. A França se tornou um paradigma de língua, de literatura e de uma noção muito importante de civilidade. A literatura pornográfica também foi importante para, com seus eufemismos, refletir ideias sobre sexo, amor e família.