"Hairspray" de Miguel Falabella troca a crítica pela caricatura

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO - Na origem da comédia musical Hairspray está o filme de John Waters com Divine. Na sua transposição para o musical e na nova versão cinematográfica, com John Travolta no papel da robusta travesti, a marca de fábrica não se perdeu, apenas se acentuou. O que era uma produção trash , com um fio de historieta, com tipos que equilibram perucas e topetes com muito laquê, ganhou música e coreografia e alcançou as telas e o palco da Broadway com indiscutível êxito. Passada na década de 60, com os ritmos musicais e o balanço dos corpos juvenis ganhando os programas de televisão e as barreiras do segregacionismo ruindo, Hairspray acompanha a colegial que, fora do peso e fascinada pelo galã da turma, vive peripécias até chegar à coroa de miss.

Em meio a movimento contra a discriminação, aos golpes de inveja da rival e o apoio da família compreensiva, a garota Tracy chega à vitória nesta Baltimore de cabelos armados de há quatro décadas. O entrecho nada marcante sobrevive mais da tentativa de um certo clima de época, que mistura a historinha da adolescente-clichê com a ambientação do período. As músicas são facilmente descartadas, logo depois de ouvidas, e as coreografias parecem se repetir num restrito desenho de passos. Falta história para tantos quadros e, se a intenção foi acrescentar música ao roteiro do filme inspirador, não seria nada mal se fossem utilizados os mesmos recursos, algo bizarros, que são a razão mesma da cinematografia de Waters.

Na versão musical, o que era involuntariamente crítico no cinema é intencionalmente caricatural. A estética, que pretende fixar com traços exagerados os anos 60, resulta apenas carregada demais nesta reinterpretação. A montagem brasileira tem a assinatura de Miguel Falabella, que é responsável ainda pela tradução das letras, mas sua participação, por questões contratuais, tem pouco espaço para criação autônoma. A matriz do espetáculo vem pronta, sem margem para aclimatar fugas locais, e portanto a direção em cada país em que Hairspray é encenada, fica restrita ao caderno de reprodução da montagem que estreou na Broadway. Miguel Falabella fez um bom trabalho na transposição das letras e na aclimatação, quando possível, das piadas originais. Como aquela que brinca com o nome da atriz Eva Marie Saint.

Como a estrutura da montagem pré-existe, o mérito da produção brasileira está na capacidade dos profissionais envolvidos executarem com competência e empenho as exigências importadas. Além da direção musical de Felipe Senna e a eficiência das atribuições técnicas, o elenco tem destaques maiores nos nomes desconhecidos. Simone Gutierrez é uma Tracy como se exige, enquanto o trio Corina Sabbas, Karin Hils e Maria Bia Martins marca presença como As Dinamites. As vozes de Bené, Graça Cunha e Ivana Domenico ressaltam, ao lado do coro com outras tantas boas vozes. Edson Celulari compõe fisicamente a prosaica figura de Edna. Arlete Salles e Danielle Winits procuram ultrapassar o desequilíbrio na distribuição dos papéis e Jonatas Faro incorpora um tipo.