Marcelo Migliaccio, Jornal do Brasil
RIO - A menos de um quilômetro do Palácio Guanabara, as pessoas são governadas pelo medo e pela insegurança. Moradores da Rua Coelho Neto e imediações vão na próxima quinta-feira ao 2º Batalhão de Polícia Militar (Botafogo) pedir mais proteção contra os constantes assaltos. A situação piorou tanto de nos últimos meses que uma sirene de fábrica instalada em um dos prédios para inibir invasores já soou pelo menos três vezes nas madrugadas, acordando a vizinhança e espantando os ladrões que se aventuraram a invadir a área interna do edifício que leva o número 4.
A sirene é um paliativo, mas ajuda conta o morador Paulo Brites, há três anos no prédio. Na última vez, o ladrão entrou por um vão na grade e ia arrombar um carro para tirar o rádio, mas o vigia noturno viu no circuito interno de TV e acionou a sirene. O invasor fugiu por um vão em que só passaria um gato.
O dono do carro quase arrombado, que disse também se chamar Paulo, mas não deu o sobrenome, acordou sobressaltado com o barulho da estridente campainha.
Na hora em que acordei fiquei com raiva, mas depois dei graças a Deus por termos esse dispositivo conta.
Novas adesões
A idéia da sirene é antiga. Instalado há pelo menos 18 anos por um síndico precavido, o aparato só começou a apitar com frequência recentemente, depois do aumento da criminalidade na área. A apreensão da vizinhança é tanta que o prédio em frente, número 5, deverá instalar seu berrante em breve.
Nós queremos colocar sim. É uma arma a mais. A polícia passa por aqui às vezes, mas os assaltos continuam ocorrendo diz Maria da Silva, moradora do edifício número 5 há 30 anos.
Na tarde de sexta-feira, a assessoria de imprensa da Polícia Militar foi contatada pela reportagem do Jornal do Brasil, mas ninguém atendeu o telefone. No 2º BPM, a informação foi de que o capitão Souza retornaria, mas isso não ocorreu até o fechamento da edição.
Segundo Paulo Brites, uma moradora da Rua Coelho Neto relatou que teria sido procurada por um desconhecido oferecendo segurança particular. Depois disso, segundo ela, a onda de assaltos recrudesceu.
A geografia também faz da rua um prato cheio para os assaltantes que roubam carros, pois eles podem seguir tanto para a Zona Norte, via Túnel Santa Bárbara, ou para a Zona Sul, por Botafogo.
Marise Medeiros conta que o namorado de sua filha teve o carro roubado em frente ao seu prédio e os dois ladrões passaram com o veículo por uma blitz da PM no acesso ao Santa Bárbara sem serem importunados.
Período crítico
Os moradores dizem que as noites de sexta-feira dão início a um período de apreensão que dura até o amanhecer de segunda. Isso para os roubos de carro, mas para os assaltos miúdos não há dia certo.
Celular, relógio e carteira de dinheiro, eles tomam a qualquer hora conta Maria da Silva. E tudo com revólver.
A atuação da PM no telefone 190 também é criticada:
Minha vizinha viu um roubo de carro pela janela e ligou para a polícia, mas a atendente fez tantas perguntas sobre detalhes do carro que o ladrão teve tempo de tirar a vítima do carro, bater nela e fugir do local.
Reuniões atraem cada vez mais gente assustada
O aumento da frequência nas duas reuniões promovidas por moradores da Rua Coelho Neto e adjacências para discutir a insegurança dá a medida da paranóia geral na área. À primeira, no dia 19 de junho, compareceram nove pessoas. Na segunda, no último dia 3, foram 19.
Parece incrível, mas todo mundo com quem se conversa por ali tem um crime para contar.
Há dois meses, uma dupla roubou três carros aqui, em sequência. O primeiro quebrou, e eles pararam dois outros e fugiram separadamente conta José Arnaldo, dentista.
Segundo ele, será entregue ao comando do 2º BPM um dossiê com todos os casos relatados nos últimos seis meses.
Queremos sacudir a região antes que uma tragédia aconteça, pois quando ela vem é sempre fruto da omissão teoriza Paulo Brites.
A proximidade do palácio onde o governador Sérgio Cabral despacha quase todo dia não significa nada.
Lá dentro tem uma companhia de policiamento da PM, mas eles não fazem nada aqui fora para melhorar a segurança conta outro morador, que prefere não se identificar por temor.
A transformação da Praça São Salvador, que fica próxima, em point da boemia, segundo moradores, contribui para o aumento da criminalidade.
Os ladrões vêm junto com a multidão diz Paulo.