Felipe Fortuna, colunista, JB Online
RIO - Diante do túmulo de Guillaume Apollinaire (1880-1918), no cemitério do Père-Lachaise, podem ser lidos alguns versos do seu poema Les Collines : poema extraordinário pela mescla de pessimismo e de irônica esperança com o qual o poeta defunto se comunica com o mundo onde não mais está. Já me encontro enfim separado/ De todas as coisas naturais/ Posso enfim morrer mas não pecar/ E o que não foi jamais tocado/ Eu já toquei e já apalpei (...)/ Habituem-se como eu/ A esses prodígios que anuncio/ À bondade que vai reinar/ Ao sofrimento por que passo/ E vocês verão o futuro . No mesmo túmulo também se encontra um caligrama famoso do poeta, que nos explica, em seu desenho: Meu coração parece uma chama invertida .
Lidos com atenção, os dois trechos dos poemas contêm mais informação do que centenas de páginas de uma biografia. Neles se encontra o poeta visionário a acreditar intensamente no futuro, a anunciá-lo com otimismo, embora resignado na sua dimensão humana. E ainda o poeta apaixonado e revolucionário, dono de uma vida tão cheia de acontecimentos quanto os seus poemas, sempre a contracorrente com sua chama invertida e apaixonada.
Apollinaire tudo experimentou: o fim da pontuação nos poemas reunidos em Alcools (1913), a pornografia algo refinada, a crítica de arte atenta para as manifestações de vanguarda, o drama surrealista de As tetas de Tirésias (1917). Postumamente, publicou-se o seu diário, bem como a considerável correspondência que manteve com várias amantes.
Os caligramas (1918) poemas da paz e da guerra exibem com fartura o tônus inovador do poeta. Embora marcadamente figurativos, eles impõem ao olhar um novo modo de ler as letras, as palavras, os versos e, enfim, o espaço da página.
A visualidade perturbadora indica, possivelmente, um mundo destruído no conflito entre as nações e o surgimento quase simultâneo de um mundo novo, no qual a ordem política surgia com a força da linguagem do cinema, das máquinas (incluindo-se a máquina de escrever) e das metrópoles. Apollinaire participou de todas essas transformações, e não apenas como soldado. Ele era o artista perplexo que encontrou tempo para escrever, em O pequeno automóvel : Demos adeus a toda uma época / Gigantes furiosos erguiam-se na Europa / (...) Os povos apressavam-se para conhecer-se a fundo / (...) Os cães latiam na direção das fronteiras/ E eu ia levando em mim todos esses exércitos que combatiam .
Na tradução que Álvaro Faleiros preparou de uma seleção dos Caligramas (Ateliê Editorial/UnB, 184 páginas, R$ 64), reproduz-se quase sempre o aspecto gráfico original dos poemas. Assim pode o leitor acompanhar os tortuosos desenhos que os versos vão compondo, como se o assunto do poema convergisse para a imagem, ou vice-versa. Poemas pueris como Chove no qual as letras imitam gotas da chuva e A gravata e o relógio terão interesse limitado. Mas outros, como Carta-Oceano escrito para o irmão do poeta, que se encontrava no México ou ainda Vindo de Dieuze conseguem demonstrar a força inventiva que Apollinaire atinge ao modelar cada letra.
Nesses casos, o poeta criou objetos híbridos que o tradutor denomina de poemas plásticos nos quais as fronteiras entre o desenho, a palavra e o som ficaram indefinidas. Persiste também um estranhamento provocado pela evidente satisfação lúdica do poeta, que monta o seu quase-texto com alguma ingenuidade, e a lição filosófica de que está impregnado.
Em Léopold Survage , por exemplo, o poeta opina: Nossa civilização/ independentemente do que se pensa/ não é mais fundada nos cânones/ da beleza humana .
Na apresentação do livro, Álvaro Faleiros tem evidente predileção pelas questões formais que dizem respeito ao espaço gráfico e aos aspectos visuais dos Caligramas. Embora bem informados, faltam aos temas trazidos pelo tradutor uma incursão pelas áreas afins nas quais Apollinaire soube transitar, especialmente as artes plásticas. No lugar de uma discussão ampla sobre as interseções de linguagens nos caligramas, deu-se preferência a uma classificação dos diferentes tipos de poemas plásticos, sem que se saiba quais as vantagens para tal. De algum modo, a ânsia classificatória contradiz o teor libertário de muitos dos poemas traduzidos, como aquele no qual se lê: Assim são as coisas desse mundo/ e a quadratura do círculo/ considerada impossível/ acontece todo dia .
As traduções da seleção dos Caligramas são cuidadosas e, em alguns casos, explicadas na apresentação. Ainda assim, é possível discutir algumas opções trazidas por Álvaro Faleiros. No poema A gravata e o relógio , o original et le/ vers/ dantèsque/ luisant et/ cadavérique transformou-se em do/ verso/ dantesco/ luzia/ cadavérico , o que modifica não apenas a sintaxe, mas até mesmo a disposição gráfica tão perseguida.
Já em A pomba Apunhalada e o chafariz , a palavra francesa jet d´eau é quase sempre traduzida por chafariz , até mesmo no título do poema. Por que razão para o verso le jet d´eau pleure sur ma peine deu-se preferência a Fonte chora a minha pena , quando a palavra chafariz teria até mesmo valor sonoro? E por que os versos jet d´eau qui / pleure et qui prie foram traduzidos por um chafariz/ que chora e salmodia , quando o verbo rezar poderia servir a contento para a linguagem coloquial e para a contagem das sílabas? Em O pequeno automóvel , por sua vez, o verso francês Je n´oublierai jamais ce voyage nocturne où nul de nous ne dit un mot transformou-se em Jamais esquecerei esta viagem noturna na qual ninguém disse nada . Não seria o caso, aqui, de valorizar a aparição de palavra no verso e optar por nenhuma palavra foi dita ?
Nenhum desses reparos pode ocultar, no entanto, o trabalho de pesquisa e de divulgação que se alcançou. Guillaume Apollinaire reaperece numa tradução que reafirma a crença do poeta: Pois o homem moderno / é um selvagem superior .