Escritor Peter Ackroyd faz thriller da vida de famoso arqueólogo

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - A vida do arqueólogo alemão Heinrich Schliemann, descobridor dos sítios de Tróia e Micenas, parece, para muita gente, uma obra de ficção. E, nas mãos do escritor inglês Peter Ackroyd, autor de diversos best-sellers sobre seus conterrâneos William Shakespeare, John Milton e Charles Dickens, foi exatamente isso que ela se tornou. Enquanto seus livros anteriores se limitavam a compor biografias levemente romanceadas dos cânones literários de seu país, em A queda de Troia, o autor vai além: usa a figura controversa de Schliemann, até hoje debatida no mundo acadêmico, para criar Heinrich Obermann, protagonista fictício de um thriller frenético. Não é, aliás, só no nome que se encontram semelhanças entre os dois. Assim como a personalidade histórica que o inspirou, Obermann é um autodidata genial e egocêntrico que, movido por uma energia monstruosa, tornou-se o centro de uma história de paixão e obsessão. Escrito em 2006 e recém-lançado no Brasil, o romance põe novamente em discussão a trajetória do arqueólogo e aventureiro que, herói ou vilão, mudou para sempre a história da arqueologia.

Eu queria ir além dos fatos da vida de Schliemann para cobrir com mais força as amplas paixões e princípios inerentes à trama justifica Ackroyd, em entrevista ao Jornal do Brasil. É claro que essa linha divisória entre onde fica a realidade e a fantasia sempre me instigou nessa história. De certa forma, era uma maneira de abraçar o passado, e ao mesmo tempo de tentar entendê-lo.

Entre realidade e mito

Sobre a estrutura mais popular do seu livro, com frases curtas e ritmo ágil, Ackroyd não vê muitas diferenças em relação às suas obras anteriores.

Acredito que o ritmo e a linguagem de todos os meus livros têm os mesmos parâmetros, façam eles parte de um thriller clássico ou não diz.

Muito do fascínio em torno de Schliemann vem justamente da dificuldade em discernir atualmente o que é verdade e o que é mito na sua trajetória. Inclusive a sua principal descoberta, os vestígios de Tróia, palco das batalhas heróicas da Ilíada homérica, encontradas no sítio de Hissarlik, Turquia, na segunda metade do século 19, foi por muito tempo discutida: não se sabia ao certo que parte da história da civilização havia sido de fato revelada lá. As linhas de sombra permitem a Ackroyd romancear a história a seu gosto, criando uma intriga de paixão e ciúmes em que se destaca a figura da grega Sophia (esposa de Schliemann na vida real). Erudito, o autor não se esquece de fazer associações entre os mitos gregos (Sophia aparece como uma espécie de Helena de Tróia) e a vida do arqueólogo. Há um jansenismo implícito na trama, e a influência inexorável dos deuses antigos pairam sobre todos os movimentos dos personagens.

O personagem carrega, porém, o essencial da natureza de Schliemann. Trata-se de um filho de camponês pobre que, dotado de incrível inteligência e instinto (aprendeu sozinho a falar mais de 20 línguas), enriqueceu com o comércio. Depois, abandonou tudo em busca de sua maior obsessão: encontrar os vestígios da cidade citada por Homero, que acreditava ter realmente existido. Contrariando os céticos, encontrou o que procurava no sítio turco, baseado na sua fé nas palavras do poeta (foi, aliás, seu conhecimento em grego arcaico que lhe ajudou a encontrar nas entrelinhas da Ilíada as pistas para os lugares de escavação). Por ser de origem pobre e não pertencer ao mundo da arqueologia, na época restrito aos círculos aristocráticos, sofreu com o preconceito e recebeu diversas acusações. Seus métodos de escavação continuam sendo questionados até hoje. Ackroyd, porém, não tem dúvidas ao apontar seu principal papel na história da arqueologia.

Sua verdadeira contribuição para a arqueologia foi permitir aos arqueólogos de sonharem afirma o escritor.

A arqueóloga Camila Zanon, cuja pesquisa de Mestrado pela USP dedica atenção especial a Schliemann, diz que foi ele quem inaugurou os estudos homéricos.

Hoje já existe um consenso de que o que Schliemann descobriu em Hissarlik é realmente Tróia explica Camila. Mas o mais importante é que ele foi o primeiro a encontrar vestígios materiais da cultura homérica. Antes, acreditava-se que o período citado na Ilíada existia apenas na literatura.

Coleta precisa

Quanto aos métodos de escavação, pode-se dizer que suas investidas radicais foram tão benéficas quanto prejudiciais. Em sua ânsia de descobrir Tróia, Schliemann destruía tudo que não lhe parecesse contemporâneo ao período homérico o que a arqueologia de hoje, cuidadosa com cada pequeno pedaço de objeto encontrado, condenaria com veemência. Paradoxalmente, a maneira como estudou o que guardava deu novos rumos à pesquisa.

A sua precisão para a coleta revolucionou a arqueologia diz Camila. Foi um dos primeiros a perceber o valor da cerâmica, por exemplo.

Além do preconceito, Schliemann teve que lidar com diversas acusações. Foi apontado como falsário (teria roubado as descobertas de outros arqueólogos) e também de praticar pilhagem. O arqueólogo tinha um acordo com o governo turco que o obrigava a doar para o país parte dos tesouros encontrados, mas em vez disso escondeu todo o material e o embarcou num navio para a Grécia. Ackroyd, obviamente, aproveita todos os pontos de controvérsia para construir um personagem ambíguo, tão tirânico quanto produtivo, que cai na armadilha do próprio idealismo. Ao mesmo tempo, o autor retrata uma época emblemática da civilização moderna, na qual a precisão e frieza da ciência começa a se confrontar com a imaginação e poesia do diletantismo.