Coletânea reúne 125 contos de Guy de Maupassant

Alvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil

RIO - É de espantar que Bola de Sebo tenha sido um dos primeiros contos publicados por Guy de Maupassant. Na antologia que ora se publica com suas histórias curtas (algumas nem tanto) apresentadas em ordem cronológica 125 contos de Guy de Maupassant, com seleção e apresentação de Noemi Moritz Kon; e tradução do escritor Amilcar Bettega "Bola de Sebo" é a segunda delas.

Publicado em 1880, numa coletânea coletiva patrocinada por Émile Zola sobre a guerra franco-prussiana (1870-1871), a quase novela Boule de Suif se passa na França invadida. Na cidade de Ruão, um grupo resolve partir para o porto de Havre. Entre os viajantes encontram-se pessoas da nobreza e uma gorda prostituta, cujo apelido dá título à narrativa.

O sucesso é imediato e surpreendente, e muitas edições paralelas são publicadas. Em poucas semanas, Guy de Maupassant, até então desconhecido, torna-se uma celebridade uma celebridade com algo a dizer, ao contrário das de hoje e a grande imprensa briga pela publicação de um conto ou crônica de sua lavra.

Nessa hora, é melhor voltar um pouco atrás na vida do escritor para estender o espanto e a surpresa. Um nome é fundamental na trajetória de Maupassant: Gustave Flaubert. O autor de Madame Bovary teve-o como pupilo durante anos, impondo-lhe duas condições: a de escrever ininterruptamente e, de maneira alguma, não publicar os primeiros resultados. Um programa austero, na melhor disciplina flaubertiana.

Quando enfim o mestre o liberou para publicar, Maupassant estava pronto e com material de sobra para oferecer aos jornais Le Gaulois, Gil Blas e Le Figaro. Pena que Flaubert morre logo em seguida. Mas a tempo para escrever numa carta: Reli 'Bola de Sebo' e sustento que é uma obra-prima. Trata de escrever uma dúzia de textos assim e serás um homem .

125 contos de Guy de Maupassant provam que ele foi este homem e um escritor de seu tempo, de curta mas intensa carreira, cuja influência se espalhou para os contistas americanos do fim do século 19 e início do século 20, particularmente Ambrose Bierce, Henry James e O. Henry. Ainda pode-se apontar toques dele em Strindberg, Kipling, Somerset Maugham, Saroyan, entre outros.

A coletânea publicada pela Companhia das Letras é uma bela amostra dessa qualidade literária. Estão presentes os vários temas perseguidos por Maupassant em sua extensa obra (mais de 300 contos, seis romances, além de peças de teatro, poesia, crônicas, críticas e correspondência). Sobre a água , que abre o volume, é um exemplo perfeito de sua técnica que se caracteriza por uma reviravolta no fim do relato.

O ensaísta Léo Schlafman, que selecionou e traduziu outra antologia de contos do francês, a que deu o título de As grandes paixões (Record, 2005), é certeiro: Maupassant é o escritor que mais abundantemente criou personagens deitadas, mas que não pedem outra coisa a não ser viver de pé, mesmo quando são, por vocação ou ofício, grandes horizontais como Bola de Sebo ou as mulheres da pensão Tellier .

Preferia personagens simples e enredos ligeiros, o que por vezes confundiu a crítica de seus contemporâneos. Diziam-no um notável noveleiro , um narrador encantador , mas não um estilista. Menos poderoso que Balzac, menos amplo que Zola, menos profundo que Flaubert. E, de certa forma, é até preferível que seja assim. Pois ele pôde ser Maupassant por inteiro.

Noemi Moritz Kon, na apresentação que escreveu para a presente coletânea, destaca o elemento fantástico de seus contos, entre os quais estão algumas das peças mais conhecidas do gênero, as duas versões de O Horla , Carta de um louco , O albergue , A cabeleira . O fantástico apresenta o núcleo duro de sua obra. Nele se entrelaçam e se condensam vários dos temas centrais de sua narrativa e nela ganha figura a tonalidade geral da obra: a desilusão , escreve a organizadora.

Guy de Maupassant morreu em 1893 depois de uma lenta e dolorosa degradação provocada pela sífilis.