Ficção de Michel Laub mostra triângulo antes odioso que amoroso

André de Leones*, JB Online

RIO - Terminada a leitura de O gato diz adeus, novo romance de Michel Laub, a última coisa de que alguém precisa é dizer o que pensa dessa tristeza toda. É o tipo de livro que comporta uma verdade dolorosíssima, um livro que você lê e depois permanece em silêncio.

Em entrevista ao site Digestivo Cultural, veiculada em maio de 2007, Laub afirmou que é a sensação de estar arriscando o tempo todo que o atrai no ofício de escritor. Como é comum entre os bons escritores, os riscos assumidos por Laub em sua escrita podem não ser pequenos, mas são calculados.

Em O gato diz adeus, ele corre o risco singelo de despedaçar o leitor. Muitos não se interessarão por essa história repleta de desencontros, mas ninguém dirá que não se trata de excelente literatura.

Com uma estrutura fragmentada e explicitamente polifônica, na medida em que dá voz a quatro personagens diferentes, quatro primeiras pessoas girando em torno de uma mesma história, o romance parte de um triângulo antes odioso que amoroso. Há Sérgio, escritor e professor quarentão, sua ex-esposa Márcia, Roberto, professor e ex-aluno de Sérgio que acaba se envolvendo com Márcia, e Andreia, uma jovem universitária que é bem mais do que uma simples leitora dos escritos de Sérgio.

Narrativa melancólica

Ódios, acusações mútuas e incompreensões de todos para com todos são desfiados desde o início, com uma verve que às vezes lembra Um copo de cólera, de Raduan Nassar, mas com uma raiva menos visceral. Comparativamente, O gato diz adeus é mais triste do que raivoso, uma narrativa melancólica sobre quatro pessoas que se perdem umas das outras, sobretudo quando tentam se encontrar.

Nesse sentido, o livro é todo construído sobre desencontros. Um ménage à trois, por exemplo, é a expressão física desse desencontro, o resultado prático da filosofia expressa por Philip Roth em Pastoral americana, segundo a qual a vida é entender as pessoas errado, sempre e sempre, num movimento infinito de desentendimentos, como se fôssemos, todos, incapazes de chegar até o outro.

No romance de Laub, as pessoas só se aproximam umas das outras para incompreender e ser incompreendidas e, a partir disso, para agredir e ser agredidas. O gato diz adeus talvez seja o livro mais violento do autor, e o mais desesperançado também. Ao contrário do que acontece em Música anterior e O segundo tempo, dois de seus romances anteriores, fica a incômoda sensação de que a vida simplesmente não segue. Há uma verdade incômoda nisso, o tipo de coisa presente nas piores histórias, as únicas que não queremos ouvir.

(*) Autor do romance Hoje está um dia morto e do livro de contos Paz na terra entre os monstros, ambos publicados pela Record.