Próximo filme de Marcos Jorge ganha adesão de Rodrigo Santoro

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RECIFE - Miséria e violência, ingredientes comuns ao cinema brasileiro com selo de exportação, já não soam tão atraentes assim no circuito internacional. É o que tem percebido o diretor Marcos Jorge ao circular pelo mundo com Estômago, longa-metragem eleito pela Academia Brasileira de Cinema como o Melhor Filme de 2008, visto por cerca de 100 mil espectadores no país e já vendido para mais de 20 territórios.

É um tipo de cinema que está desgastado. A gente vê que os estrangeiros ficam felizes de não encontrar favela e tiroteio em histórias como a de Estômago, apesar de falar de cadeia admite o realizador curitibano de 43 anos, jurado do 13º Cine PE, que está desenvolvendo o segundo tratamento do roteiro de Dois sequestros, seu próximo projeto cinematográfico.

Motorista da carrocinha

Embora centrado no conflito de valores de um pacato motorista e de um traficante de drogas, o novo filme de Jorge persegue o mesmo objetivo do anterior: quer discutir a ética dentro do universo da classe média baixa brasileira, um extrato social muito pouco explorado pelo cinema feito no país , na opinião do diretor. O roteiro está sendo escrito a quatro mãos com Lusa Silvestre, repetindo a parceria de Estômago.

Em Dois sequestros,/i>, não mostraremos favelas, nem sequer uma cena de violência. A brutalidade se manifesta de maneira psicológica avisa Jorge, que já conseguiu a adesão de pelo menos um nome de peso ao projeto, o do ator Rodrigo Santoro, que interpretará o bandido. A gente se conheceu no Festival Internacional de Roma do ano passado. Ele se interessou particularmente pelos desafios sugeridos pelo personagem, que é bonito, extremamente violento e carismático.

Dois sequestros se passa na periferia de uma cidade grande. Conta o drama de Santana, um tranquilo e pacífico motorista da carrocinha municipal, que recolhe cães abandonados nas ruas. Sem saber, Santana captura o cachorro de um perigoso marginal de um bairro vizinho, que vem a ser sacrificado. Como vingança, o traficante rapta o filho caçula do pacato chefe de família. O inesperado interesse do vilão pela filha adolescente de Santana, de características peculiares, provocará diversas reviravoltas na relação entre os dois.

Aqui, o fundamental não é o fundo social da história, mas o plano ético. Em Estômago, eu explorava a ética do poder. Havia, por exemplo, a prostituta que não beijava na boca. Com Dois sequestros, pretendo discutir a ética da justiça, tomar o tema de Tropa de elite, que fala sobre a vingança do Estado, para o nível do indivíduo. Até que ponto o cidadão pode fazer justiça com as próprias mãos? questiona Jorge.

Santana é descrito pelo diretor como um brasileiro típico , sujeito boa-praça que prefere uma cervejinha diante de um jogo de futebol na TV ao tumulto do estádio. E que tem conseguido, na medida do possível, manter a violência urbana fora da porta de sua humilde casa. A tragédia do personagem começou a tomar forma ainda nos bastidores da conclusão de Estômago, sobre um nordestino que vai ganhar a vida na cidade grande e descobre sua aptidão como cozinheiro. O filme ganhou primeira projeção pública em 2007, no Festival do Rio, onde ganhou os troféus de Melhor Diretor, Ator (João Miguel) e o de Público.

Gosto de investigar personagens que levam uma vida completamente diferente da minha. Um tipo que marcou muito a minha infância era o homem da carrocinha. A gente criava um cachorro de rua, e eu vivia em pânico com a ideia de ele ser levado. Conversei com o Lusa sobre essa minha obsessão e começamos a trabalhar uma história a partir dessa figura conta o diretor, que cresceu nos subúrbios de Curitiba. Minha mãe era costureira e meu pai era caminhoneiro. Acho que peguei o gosto pelo cinema com a visão privilegiada da boleia de um caminhão.

Rodado no subúrbio

Orçado em R$ 4 milhões, Dois sequestros será rodado provavelmente no subúrbio do Rio de Janeiro. Outras duas cidades concorrem para o papel: São Paulo e Curitiba. O projeto recebeu o prêmio de Desenvolvimento de Roteiro do Ministério da Cultura, mas o diretor pretende procurar parceiros internacionais para o filme, assim como fez com Estômago, que custou R$ 2 milhões e resultou de uma co-produção com a Itália.

Em maio, vou apresentar o projeto no Festival de Cannes anuncia. A co-produção é uma boa forma não só de realizar um filme, mas também de garantir a exibição dele lá fora.

(Carlos Helí de Almeida viajou a convite do Cine-PE)