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Artigo: "Cem milhões de idiotas"

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Mario Marques, Jornal do Brasil

RIO - Estamos em transe. Somos escravos, trancados e alienados pelo maravilhoso e ao mesmo tempo taquicardíaco mundo da internet. Na semana passada, nossa idiotização foi ao limite de todos os bytes. A anônima escocesa Susan Boyle, cuja interpretação enfadonha de I dreamed a dream (clássico de Os miseráveis, baseado na obra de Victor Hugo) inacreditavelmente encantou os jurados do Britain's got talent, acabou por ultrapassar a marca de 100 milhões de acessos no YouTube. Trata-se de um fenômeno insofismável, não fosse trágico para o exercício pleno da razão de nossa emergente Geração Internet. Susan Boyle é, de fato, distante dos padrões de beleza, de charme, de elegância, como ressaltaram todos os seus canais de difusão do planeta. Não é absolutamente nada cool, como tascou Simon Cowell. Mas sua voz, seu timbre, as divisões que apresentou não têm nada nada nada de fenomenais. Ao transformarmos a rechonchuda e, vai, engraçada moça do interior numa cantora brilhante, dando a ela uma plataforma de valor artístico, perdemos todos nossos calços, todo nosso senso de ridículo. Perdemos de vista nossos parâmetros estéticos, nossa formatação intelectual. Uma coisa é dar a notícia pura e simples: é realmente um número de visitas assombroso, digno de registro e de indagações outras. Mas daí a olhar Susan Boyle como uma estrela da música? É demais. Demais! Demais! Não dá para ver o tal vídeo e ter a certeza de que Susan Boyle será atropelada por outra Susan Boyle. Ela não é nada.

Aos 47 anos, a candidata ao estrelato aguarda a próxima etapa do programa, em 30 de maio, quando defenderá Whistle down the wind, tema de um musical de Andrew Lloyd Webber. No momento, fala-se e mostra-se sua transformação no visual, do novo corte de cabelo, das roupas chiques. Está a cara da Luiza Erundina. Que legal.

Sou também um dos idiotas globalizados, um entre o bilhão contabilizados em pesquisa de pouco tempo atrás sobre números de usuários de internet. Passo horas descobrindo gravações de caixas pretas de acidentes de voo no YouTube. Ou vasculhando mortes esquisitas. Vejo clipes antigos de artistas desconsiderados. E tento compreender filmes por vestígios quaisquer, que vão de trailers a entrevistas. Devo dizer que não fiquei chorando o enterro da minha Lettera 82. O www é mesmo um mal necessário do sujeito moderno. Meu receio é que... receio, não, pânico nas próximas duas décadas assista à deterioração da alma e do cérebro de minhas filhas. Que decerto mascarão com prazer as Susan Boyles que vão aparecer diante de seus olhos paralisados. Não há jeito, não há censura que dê jeito. Nossos filhos, netos, bisnetos serão apatetados pela hipnótica internet.

Em se tratando de jornalismo, ainda não se pode traçar um retrato completo entre o que efetivamente pode migrar do mundo virtual para o impresso. Há os que defendem que o que nasce na internet tem que padecer e morrer na internet. De concreto, agora, vale o oficial. A internet pauta os jornais, que repercutem. Viraram o calabouço da notícia. Recebemos um aviso num online qualquer e corremos para o telefone. É um canal nobre para a preguiça, para a falta do pensar e achar. Por vezes vendem-me reportagens baseadas no que o carinha da NME ou da Rolling Stone gringa escreveu, achou. Devolvo, levantando ao repórter que existe uma grande possibilidade de o rapaz que assinou o artigo ou crítica sobre determinado filme ou disco ou que o valha entenda menos, muito menos do que ele. É a velha história do rádio: se um dia você plugar numa estação e não encontrar uma só música que não conheça é certo que você conhece mais do boteco do que o programador. Mas não. Insistimos nisso, nessa dominação internética de achismos imperiais e referenciais. Mesmo depois de o Jon Pareles incensar o Carlinhos Brown, o Tom Zé e o Arnaldo Antunes, continuamos mobilizados pela turma da música do Deu no New York Times , que ganhou força múltipla ao atirar-se Times Square abaixo no furacão da internet, nos anos 2000. Antes de emitir uma opinião sobre qualquer coisa, a meninada cai matando atrás do que achou Y, Z e X, de um blog cultuado ou de um crítico renomado. Ou do amigo-que-mora-em-Londres, ao MSN. Só depois, de posse de todas as informações possíveis, o garoto lança a sua própria. Que naquele momento não é mais sua.

Na internet, este bicho indomável e processador de grandes revoluções tecnológicas, corremos o perigo de sermos tragados pelo mundo irreal, pelas versões e reversões. Corremos o risco de acharmos que Susan Boyle é a nova Maria Callas. Assim como recentemente ouvimos, tontos, que Mallu Magalhães, outra cria da internet, lançada por este Caderno B, era a nova Cássia Eller. Os idiotas, nós, estamos confusos e atormentados por um punhado de links que misturam qualidade e quantidade, verdade e mentira, marketing e realidade, bobagem e seriedade. Proponho um dia sem internet em nossas vidas. Para tentar voltar no tempo da originalidade, onde paramos. Porque realmente paramos.

Semana sim, semana não, recebo notícias de Cléo Cadillac (vendida por sua assessoria de imprensa paulistana como afilhada de Rita Cadillac ). Lembro-me de uma nota que mostrava, com fotos, a moça sendo repreendida por um policial, quando praticava topless na praia. Sendo positivo ou não, o que acontece na vida de Cléo Cadillac, qualquer coisa, entra na minha caixa de entrada. Como esta, de domingo:

No ultimo sábado (25/04) Carol Miranda (sobrinha de Grecthen) e Cléo Cadilac (afilhada de Rita Cadillac) tiveram uma briga na casa noturna Cabaré, em São Paulo. O pivô da briga seria (sic à beça) as declarações dadas por Cléo sobre Carol em um programa de TV. Parece que a rivalidade entre Grecthen e Rita passou de geração a geração.

Acredite: há fotos da indigente cena.