Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil
RECIFE - Habitual plataforma da produção cinematográfica local e nacional, a edição 2009 do Cine PE Festival Audiovisual do Recife, que começa nesta segunda na capital pernambucana, abre suas fronteiras para acomodar uma homenagem ao diretor grego-francês Costa-Gavras. Eden à l'Ouest, o mais novo filme do autor de Desaparecido Um grande mistério (1982), entre outros títulos de fundo político, abre os trabalhos da maratona, em caráter hors-concours, e dá o pontapé inicial numa minirretrospectiva de seus filmes, que inclui três outros títulos, inclusive o lendário Z (1969), sobre o golpe militar na Grécia.
Cinco títulos competem pelo troféu Calunga de Melhor Filme: Alô, alô, Terezinha! (RJ), documentário de Nelson Hoineff sobre Chacrinha, ícone da TV brasileira; Estranhos (BA), de Paulo Alcântara; Mistéryos (PR), de Pedro Merege e Beto Carminatti, com Carlos Vereza e Sthefany Brito no elenco; Praça Saens Peña (RJ), de Vinícius Reis, que traz Chico Diaz e Maria Padilha no elenco; e Um homem de moral (SP), documentário de Ricardo Dias sobre o compositor Paulo Vanzolini.
Sabatina de duas horas
A maratona será encerrada dia 3 de maio com a exibição, fora de concurso, de O homem que engarrafava nuvens, documentário sobre a vida e a obra do compositor, advogado, deputado federal e criador das leis de direitos autorais, Humberto Teixeira, o rei do baião, assinado por Lírio Ferreira. O júri de longas é composto pelos diretores Fábio Barreto, Marcos Jorge, Luiz Carlos Lacerda, a produtora Assunção Hernandes e o ator Cássio Gabus Mendes.
Gavras, no entanto, promete roubar as atenções da semana. O diretor, que chegou ao Recife neste domingo, participará de uma sabatina de duas horas de duração com direito a presença do público. Ele esteve no Brasil pela primeira vez no início dos anos 70, durante a fase mais aguda da ditadura militar, para fazer pesquisas sobre guerrilheiros uruguaios que sequestraram o cônsul brasileiro e um oficial da inteligência americana. As informações, que acabaram sendo encontradas nos Estados Unidos, alimentaram Estado de sítio (1973).
Em Eden a l'Ouest (O paraíso é o Oeste, em tradução livre), Gavras aponta sua câmera para os imigrantes ilegais, que viraram instrumento de políticos em toda a Europa. Descreve a odisséia de um jovem, interpretado pelo italiano Ricardo Scarmarcio (Meu irmão é filho único), que atravessa o Mediterrâneo em um barco superlotado para concretizar o desejo de viver em Paris. O diretor evitou dar uma nacionalidade e uma língua reconhecíveis para o personagem:
Se o espectador não sabe de onde ele vem, há de respeitá-lo como ser humano. Toda nacionalidade traz consigo um passado, uma história de guerra, de miséria, uma ideia de religião, e eu queria que ele fosse visto apenas como um homem comum explicou ao Jornal do Brasil o veterano realizador de 76 anos, que presidiu do júri do Festival de Berlim no ano passado, que deu a vitória ao brasileiro Tropa de elite. O filme de José Padilha mostra como as autoridades eleitas por nós permitem que a polícia faça seu trabalho sem qualquer tipo de controle. Os governantes não querem se responsabilizar por seus atos. E isso é o pior que pode acontecer à democracia.
A programação do Cine PE ainda abriga uma mostra competitiva de longas pernambucanos. Concorrem KFZ-1348, de Marcelo Pedroso e Gabriel Mascaro, Geração 65: Aquela coisa toda, de Luci Alcântara, e Pela vida, pelo tempo, de Wilson Freire.