Táia Rocha, Jornal do Brasil
CACHOEIRO DO ITAPEMIRIM - A pequena Cachoeiro de Itapemirim (ES), de 196 mil habitantes, parou. Não se falava em outra coisa além do show de Roberto Carlos no último domingo. Não foi para menos: durante 1h30, o músico comemorou seus 68 anos de vida e os 50 de carreira com as canções que embalaram várias gerações de brasileiros. Os ingressos começaram a ser vendidos duas semanas antes do show e, em 24h, as cadeiras numeradas, localização privilegiada na plateia, a R$ 100, eram lenda. No momento da abertura dos portões, uma fila dava a volta no Estádio do Sumaré, localizado no Centro da cidade. A cachoeirense Danielle Hercolano, de 27 anos, não se conteve:
A cidade inteira foi! Sábado ainda havia uns 400 lugares na arquibancada, mas se esgotaram rapidamente. Mas não houve empurra-empurra ou qualquer confusão. As mulheres até ganharam um bombom na entrada!
Antes que o ídolo subisse ao palco, o maestro da banda, Eduardo Lages, combinou com o público uma homenagem surpresa:
Assim que eu der um sinal, vamos cantar parabéns juntos, ok?
A plateia aplaudiu e o trato estava feito.
Roberto abriu a festa com a imprescindível Emoções, e o que veio em seguida foi uma sucessão de hits que marcaram os últimos 50 anos de qualquer brasileiro: O portão, Emoções, Detalhes, Eu te amo, te amo, te amo e Outra vez. Roberto ainda surpreendeu o público com um pout-pourri dos sucessos Aquela casa simples, Lady Laura e Meu querido, meu velho, meu amigo.
A homenagem de Roberto à terra natal foi ao limite ao entoar o hino da cidade, Meu pequeno Cachoeiro, de Raul Sampaio, que arrepiou e arrancou lágrimas dos 12 mil fãs presentes.
Público plural
Se o Rei sempre declarou aos quatro ventos seu gosto democrático para mulheres, o resultado do amor sem limites para com o público pôde ser visto neste domingo. Dona Helena Mignone, de 80 anos e primeira professora de música do artista, conta que seria impossível definir um perfil de fãs naquela noite:
Havia ricos, pessoas mais simples, gente nova, gente madura, idosos, mulheres, homens... de tudo! Todos ficaram muito emocionados, muitos choraram, todos cantaram juntos. Foi uma noite inesquecível! empolga-se.
O clima de emoção foi recíproco no palco:
O Roberto por vários momentos cantou com a voz embargada, chegou a chorar mesmo, ao abrir o show e em muitos outros momentos testemunha Helena.
O clímax do espetáculo foi quando o esperado sinal de Lages veio: Roberto se preparava para começar uma música, quando a iluminação, do palco e do estádio, se apagou, e as únicas luzes que passaram a ser vistas foram as das velas de aniversário no bolo que chegou ao palco. A banda então tocou um emocionado Parabéns a você, acompanhada da multidão, que respondeu com bastões luminosos distribuídos pela produção, telefones celulares e isqueiros. Os 14 anos que Cachoeiro esperou para ver uma apresentação da prata mais brilhante da casa parecem ter valido a pena. A turnê de 50 anos de carreira se prolonga até 14 de novembro no Brasil, depois parte para sua fase internacional. No Rio, Roberto pode ser visto no dia 11 de julho, no Maracanã. Convém preparar o lenço.
Parentes e amigos abraçam o cantor
Roberto Carlos fez questão de privilegiar a família, os amigos e a cidade durante o show que marcou meio século de sua carreira.
Assentos em posição privilegiada, nas cadeiras numeradas, foram reservados para personalidades como o prefeito da cidade, Carlos Casteglione (PT), deputados e empresários locais, mas também para amigos, como Helena Mignone, professora de piano da adolescência e primeiro contato formal com a música:
Ele tinha 13 anos e disse que não queria ser pianista, mas precisava ter noções de música lembra Àquela época Roberto já tinha um ouvido apurado e logo percebi sua musicalidade.
Dona Helena ainda foi recebida com todas as honras no camarim do rei, logo após o show:
Ele também recebeu políticos, deputados, mas com certa cerimônia. Quando chegou a minha vez, me deu um abraço apertado e beijos efusivos! Tiramos retratos, foi uma festa. emociona-se.
Outro muito bem recebido foi o amigo de infância Paulo Ney Viana:
Ele adorava jogar pelada na rua diz o médico, que ainda guarda a imagem de Roberto como amigo de infância, além do mito que arrasta multidões.
Para mim é como se fosse um parente próximo, muito querido definiu Irmã Fausta, freira que deu de presente ao cantor um medalhão que Roberto ostentou durante muito tempo, com o figurino quase sempre branco e azul.
Os filhos, Laura e Dudu Braga, e o irmão de Roberto, Carlos Braga, subiram ao palco na hora do parabéns e receberam os primeiros pedaços do bolo das mãos do cantor, que depois entregou fatias à banda, ao som do coro emocionado do público, que entoava como é grande o meu amor por você .
A cidade passou por uma semana de intensas comemorações: a prefeitura lançou a campanha Como é grande o nosso amor por você, que orquestrou eventos na cidade.
O Estádio do Sumaré foi recuperado e a casa onde o músico nasceu, hoje um centro cultural, foi restaurada e teve seu jardim refeito. Um grande relógio também foi instalado na Praça Principal e fez a contagem regressiva até domingo.
Roberto fez questão de convidar os operários que construíram o palco e restauraram o estádio, além de distribuir ingressos em bairros menos abastados da cidade. Ao fim da noite de domingo, declarou:
O show desta noite é dedicado a cada um dos habitantes desta cidade. Eu me sinto como se estivesse começando a minha carreira hoje. Obrigado.