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Antropólogo analisa textos clássicos de abade que se vestia de mulher

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Hélio R. S. Silva*, JB Online

RIO - É explicável a relação imediata que se faz, consensualmente, entre travestismo e homossexualismo. Afinal, sua fração mais visível é aquela que se prostitui nas calçadas de nossas cidades. Mas, não é a única. Integram o universo, longe das calçadas e da prostituição, transformistas, drag-queens, transexuais e travestis permanentes, sazonais, e sobretudo heterossexuais que talvez constituam o maior segmento do arco-íris travestido.

O travesti torna-se visível nos grandes centros urbanos brasileiros há cerca de 40 anos. Antes, tratava-se de experiência reclusa, o que ainda hoje deve acontecer com muitos, sobretudo os heterossexuais. Não é exatamente o caso de nosso abade, que já no século 17 circulava vestido de mulher entre conhecidos, vizinhos, parentes e amigos nos salões, igrejas, teatros e ópera. Travestido, recolhia donativos para a igreja e se recolhia em sua alcova com a esposa.

Há contextos nos quais o travestismo é possível, outros em que é problemático e alguns em que é impossível. Tudo depende das variações no tempo e no espaço das representações e das práticas relativas a identidades de gênero. O caso do abade era um caso isolado. Casava bem com um traço aristocrático por excelência, aquele que sublinha certa condescendência com os tipos bizarros, excêntricos. Um sinal de distinção, uma ourivesaria do espírito.

Os travestis que conhecemos em nossas ruas têm extração oposta. Vêm de classes populares e optam pela batalha , um tanto como forma de realização, um tanto como expediente de sobrevivência. O fenômeno, portanto, situa-se em outro contexto. E se o contexto sociossimbólico é outro, provavelmente serão outros também o significado e implicações do fenômeno observado.

A paulatina ocupação dos espaços públicos por travestis no Brasil é contemporânea da eclosão do movimento feminista. Abre uma brecha para o questionamento do binarismo de identidades de gênero e orientação sexual que talvez não fosse tão natural como se supunha e correspondesse apenas quem sabe? a uma ordem moral, reprodutora e castradora, não do falo propriamente dito, mas do desejo irradiante e da imaginação. Desafia uma ordem pautada na repressão à sexualidade alheia.

O feminismo impôs golpes significativos a tal ordem. Machismo, patriarcalismo, macho-fêmea, ativo-passivo deixaram de ser os pilares sobre os quais o mundo se assentava e se tornaram tão-somente traços caricaturais de uma ordem comprometida. O álacre travesti na rua, público e dialógico, substitui a caduca e esbatida figura oscilante entre o espelho e o psiquiatra.

As passeatas gays constituem a celebração da conquista dos novos espaços e o símbolo do arco-íris sugere a multiplicidade e ampliação do arco da identidade e do desejo. Nesse sentido, não é uma questão de minorias, é questão de todos.

Cabe hoje aos estudiosos do novo contexto a tarefa de desnaturalizar as tendências contidas no arco rico das experiências possíveis. Para isso, nada melhor que a comparação com outros contextos, cujos detalhes imprimem significados diversos ao mesmo aparente.

Esse nariz-de-cera serve apenas para que o estudante da questão saliente a importância das memórias deste abade para o entendimento do fenômeno.

O contexto evocado pelas memórias do abade de Choisy, exatamente pela suas idiossincrasias e particularidades, nos informa muito sobre os limites e possibilidades da identidade de gênero. Serve para evitar a naturalização de certas manifestações contingentes e circunstanciais, isto é, com as marcas sociais, culturais, políticas, econômicas, estéticas, morais, jurídicas que todo contexto imprime à vida social da qual os travestis não estão imunes.

Tal contribuição tem caráter introdutório e não recobre o que é fundamental no texto. O mais importante nem é tanto o prazer que o abade extrai de suas incursões vestido de mulher, mas o prazer que extraímos ao longo de seu texto. E mais, a conexão entre o escritor e o travesti, entre o vestido e o texto. Não se trata de uma transparência através da qual se espiam as aventuras do autor. Lembra mais uma veste elegante e curta em sua caprichosa economia de cores e adornos. Deve-se encarecer para a preservação desse encanto, a bela tradução de Leopoldo Fróes que mantém ao mesmo tempo o tom de um escritor formado no século 17, que escreve nos inícios do século 18, e a coloquialidade que o torna acessível ao leitor de hoje. Traduz coloquialidades no duplo cruzamento de quase três séculos e de dois idiomas. Mantém o tom da época mediante o uso elegante e contido de elementos indiciais da linguagem.

Fortemente visuais, suas imagens colocam ante o leitor a sucessão dos acontecimentos biográficos costurados pelas linhas evidentes da imaginação. Descrições e devaneios tensionam-se. A imaginação integra o real e o esclarece. Antropólogos e historiadores nunca negligenciam a imaginação no esforço de manter densos e vivos seus contextos e quadros históricos. Não vale arranhar a pena (ou castigar o teclado) no esforço para distinguir no texto a invenção da realidade. Só inventa quem tem intimidade com o material, e essa intimidade autentica a invenção.

Retomando o que se afirmou linhas acima, a ocorrência pública do travestismo, as formas que assume, os lugares nos quais se manifesta e o significado específico e compartilhado que suscita dependem muito do contexto.

O jogo entre os contextos descritos pelo abade e evocados pelo tradutor em seu posfácio oferece subsídios interessantes para lançar alguma luz sobre a experiência travesti.

Nosso abade não era um travesti temporário, sazonal ou definitivo. Sua experiência é uma experiência da mocidade, recordada na idade provecta, ali pelas cercanias dos 80.

No ocaso da vida, parece empreender um breve, gracioso e último travesti. É bom lembrar que este termo, em estado de dicionário, significa alguém que se veste com roupas de outro sexo, mas também de outra condição, ou de outra idade.

A crise mística que levou o abade de Choisy a abandonar o travestismo coincide com o fim de sua juventude. O que ele relembra é essa juventude, seus ímpetos e impetuosidades, amortecidos pela maturidade para cujo advento ele se refere mais de uma vez ao longo de suas narrativas.

Em sua experiência transtextual (sic), o ancião relembra o travestismo do jovem que se veste como mulher e opera outro travestismo ao converter essa personagem criada na juventude em um texto cujas marcas e caprichos mimetizam os tecidos, jóias e pintas de sua caracterização no passado. Pode falar abertamente do que a maturidade tornou excessivo. Atribuir à juventude tais desregramentos é a aposta do texto, mas as fichas dessa aposta são lançadas com muito calor e envolvimento. Cenários, figurinos e situações daquela quadra da vida do escritor são pintados com cores tão vivas que terminam por denunciar um envolvimento prazeroso que corresponde ao prazer que proporciona ao seu leitor. O fundamental do texto talvez esteja nesse torneio, nesse diálogo entre o vivido e o refletido, entre a juventude e a senectude (nada tremulina) do abade de Choisy.

O prazer de sua juventude é traduzido para um outro prazer, o do escritor consagrado e senhor de seus recursos que trabalha sua memória de forma a travestir o leitor em voyeur e assim suscitar um outro prazer, o da leitura de suas aventuras picantes e que, sabiamente, insinuam mais que escancaram.

*Antropólogo e pesquisador do Laboratório de Etnografia Metropolitana da UFRJ. É autor de Travesti: entre o espelho e a rua (Ediouro)