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Exposição com 123 obras das vanguardas russas chega ao Brasil

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Táia Rocha, Jornal do Brasil

RIO - No início do século 20, o mundo pulsava no ritmo das novas ideias, seduzido pelas promessas da segunda revolução industrial e pelas novas correntes políticas, tendo como epicentro a Europa. Nesse contexto, a arte russa protagonizou uma reviravolta sem precedentes na história, suprimida pelo realismo soviético implementado por Stalin, na década de 30. Até então, as chamadas vanguardas russas traduziam, desde o fim do século 19, as aspirações estéticas e políticas dos modernistas, em movimentos como o construtivista e o suprematista. Parte deste vigor artístico, criado por artistas como Marc Chagall, Wassily Kandinsky, Kazimir Malevich, Aleksandr Rodchenko e Vladmir Tatlin, chega ao público brasileiro na exposição Virada russa, que traz 123 obras ao Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, a partir desta terça-feira, com passagem pelo CCBB Rio entre 23 de junho e 23 de agosto.

Ania Rodríguez, a curadora cubana que faz parte da equipe que organizou a exposição, detalha os critérios para a seleção.

Escolhemos as obras que mais bem transmitissem a noção de virada na arte russa, as mais revolucionárias mesmo frisa a curadora, para quem o maior mérito das diversas correntes da vanguarda foi romper com a arte figurativa e, por conseguinte, com a representação formal das imagens.

Berço do modernismo

Mestre em história da arte pela PUC e formada em estudos da curadoria pela Bart College de Noava York, a crítica de arte Luisa Interlenghi aponta o movimento como berço do modernismo.

O marco do que aprendemos ser o principal para o início dos modernos é com o cubismo de Pablo Picasso. De fato, mas Tatlin conheceu as obras de Picasso e levou para o plano tátil as ideias dos vários ângulos simultâneos, materializando as imagens modernas contrapõe Luisa. A corda de suas obras é uma corda real, os materiais estão ali, em três dimensões.

A curadora também ressalta a importância dos ecos vanguardistas nas artes brasileiras:

Um dos momentos mais importantes para o modernismo brasileiro, o construtivismo, foi fortemente influenciado pela vanguarda russa.

A iniciativa de trazer as obras, que compõem o acervo fixo do Museu Estatal Russo de São Petersburgo, detentor da maior coleção de obras russas no mundo, partiu do produtor e curador brasileiro Rodolfo Athayde. O curador entrou em contato com o museu russo e conseguiu articular a vinda das obras. A última grande exposição do país por aqui foi a mosrta 500 Anos de arte russa, na Oca de São Paulo em 2002. Virada russa, no entanto, promete ser a maior coletânea do período vanguardista já realizada em solo brasileiro.

A exposição reunirá pela primeira vez obras como os três quadros de Malevich que marcam o começo do rigor geométrico na pintura Cruz negra, Quadrado preto sobre fundo branco e o Círculo negro sobre um fundo branco.

Essas três obras, juntas, são as mais importantes da exposição. Malevich desliga a arte de qualquer sentido representativo, fundando o suprematismo explica Rodolfo Athayde. É o resultado de uma pesquisa do artista sobre a essência da arte e representa a vanguarda mais radical.

Além de pinturas, esculturas e objetos desenhados pelos artistas, a mostra reúne curiosidades como os figurinos desenhados por Malevich para a importante ópera Vitória sobre o sol, de Alexei Krutchônik (1913).

Filmes da época, como O homem com a câmera, de Dziga Vertov (1929), e Aelita, a rainha de Marte, de Yakov Protazanov (1924), além de documentários recentes, contextualizam artística e politicamente a cena soviética da época, além de cartazes publicitários, artísticos e políticos da época.

A política, aliás, é matéria-prima de todas as obras. Criadas antes e durante a revolução comunista de 1917, muitas peças utilizam os elementos-base da revolução industrial: ferro, vidro, acrílico, novos materiais para novos produtos e para a nova arte que surgia. Ania conta que foi também a política quem adicionou os ingredientes que fizeram desandar a receita da vanguarda.

Com o stalinismo, os artistas que não seguiam o realismo soviético, o estilo artístico oficial, não eram perseguidos, mas não recebiam incentivos do governo observa a curadora. A maioria deles deixou de produzir arte de vanguarda.