Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil
BERLIM - Drama sobre o impacto dos atentados de 2005 em Londres na vida de dois pais de diferentes origens, exibido ontem, London river disparou na corrida pelo Urso de Ouro da 59ª edição do Festival de Berlim. Dirigida pelo franco-argelino Rachid Bouchareb (Dias de glória), é uma produção franco-britânica ambientada nos dias que se seguiram aos ataques ao sistema de transporte londrino, que matou mais de 50 pessoas e feriu outras 700. O filme se junta a outros tantos da seleção oficial deste ano que usa a família como cobaia dos efeitos da globalização, como o iraniano About Elly, de Asghar Farhadi, o francês Ricky, de François Ozon, e o sueco Mammoth, de Lukas Moodysson.
Coprotagonizado pela britânica Brenda Blethyn (Segredos e mentiras) e o malásio Sotigui Koyuate, London river fala sobre uma mãe inglesa e um pai africano que chegam à capital londrina para procurar os filhos, que desapareceram depois da tragédia. Logo ela descobre que a filha estava morando com um jovem imigrante negro num bairro muçulmano, onde os dois estudavam árabe no centro comunitário. O preconceito e o medo que, a princípio, afasta a britânica, viúva de um militar, morto na Guerra das Malvinas, de seu companheiro de infortúnio, que trabalha na França cuidando de árvores, vai aos poucos sendo minado pela dor comum.
Blethyn disse que o choque de sua personagem ao descobrir que a filha vivia com um negro muçulmano é um claro exemplo das tensas relações raciais no Reino Unido.
Mesmo sendo uma inglesa, minha personagem se sente em um mundo alienígena. Foi assustador me ver no papel de uma mãe em busca de notícias de sua filha, que enfrentar tudo isso e chega ao fim da busca transformada contou a atriz durante a coletiva de imprensa.
Em certo momento do filme, até mesmo Ousmane, o pai africano, chega a confessar temer que o filho, que não vê há 15 anos, seja um dos envolvidos nos atentados:
O ódio é um sentimento com o qual a raça humana convive há muito tempo e, provavelmente, viverá com ele para sempre. Mas o mundo continuará girando e nós temos que nos agarrar à esperança.
Outra título do dia que chamou a atenção foi Chéri, de Stephen Frears, drama de época inspirado no romance homônimo da escritora francesa Colette, lançado nos anos 20, que descreve a relação de uma cortesã de meia-idade (Michelle Pfeiffer) com o jovem filho de uma ex-rival nos negócios do sexo (Kathy Bates). O filme retoma a parceria do autor de A rainha (2007) com o roteirista Christopher Hampton, autor da adaptação para o cinema de Ligações perigosas, lançado por Frears 21 anos atrás.
Forever entralled, de Chen Caige (de Adeus minha concumbina), nao causou muita impressão. Cinebiografia do lendário cantor de ópera chinês Mei Lanfang, é um deslumbre de reconstituição de época sem pulso ou coração. Em muitos aspectos, fica fora do alcance do interesse da presidente do júri, a atriz escosesa Tilda Swinton, que revelou no primeiro dia do festival estar mais preocupada com as questões suscitadas pelo que estava acontecendo em Gaza do que com a crise econômica .