Em busca de mais um 'normal'

Carlos Helí de Almeida, JB Online

RIO - Nas últimas semanas, as jornadas do diretor José Alvarenga Jr têm começado sombrias e terminado às gargalhadas. As manhãs são consumidas pelos preparativos de Polícia reservada, seriado policial barra pesada que vai ao ar a partir de abril pela Rede Globo. As tardes e noites ele passa no set de Os normais 2, a seqüência do sucesso de bilheteria inspirado no programa de TV homônimo, que atraiu mais de 3 milhões de espectadores aos cinemas em 2003.

Fazer o filme neste momento está servindo como uma terapia. É um alívio vir para o estúdio trabalhar numa comé dia rasgada depois de passar horas envolvido com uma realidade embrutecida diz o publicitário e diretor de TV e cinema, num dos breves intervalos das filmagens do longa-metragem protagonizado por Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães, no Projac.

Alvarenga tem motivos para continuar rindo à toa. Considerada uma das melhores novidades da TV brasileira dos últimos anos, a série escrita por Fernanda Young e Alexandre Machado, que durou as três temporadas, ganhou sobrevida ao longo dos anos, seja no filme para cinema, na venda de cópias em DVD e, atualmente, nas reprises no canal GNT, a maior audiência daquele canal . Além de matar as saudades da equipe do programa , Os normais 2 quer realmente explorar o gênero preferido do brasileiro.

É claro que as parceiras do primeiro filme (a Globo Filmes e a distribuidora Europa) estavam interessadas em um novo hit comercial. Mas não podemos negar que nós, diretores, atores, roteiristas e técnicos, também somos artistas de massa. Temos que descobrir como essa massa é, apesar de o cinema brasileiro se sentir um pouco envergonhado de aceitar isso admite Alvarenga, que se iniciou na carreira cinematográfica dirigindo títulos para a franquia Os trapalhões.

O retorno de Rui (Carvalho) e Vani (Fernanda), o casal moderno mais careta e atrapalhado da teledramaturgia brasileira às salas de cinema, acontece com pelo menos um par de anos de atraso.

Nossas agendas nunca se acertavam. Quando finalmente elas se alinharam e pudemos começar a pré-produção, ainda em 2007, a Fernanda engravidou conta o diretor, antes de voltar para o quarto de hotel em que Rui e Vani negociam uma noite de diversão com contrabandista de animais silvestres (Paulo Serra), que eles confundem com um traficante de drogas.

Os normais O filme mostrou como o casal se conheceu. A história era, basicamente, uma comédia romântica movida a muitos mal-entendidos. Nesta seqüência, que tem estréia prevista para o segundo semestre, a dupla está junta há 13 anos e sai em busca de um terceiro parceiro que ajude a apimentar a vida sexual dos dois. Os equívocos e o humor sem restrições estão de volta, de maneira ampliada. O elenco de convidados é formado por atores que já participaram do seriado de TV, como Drica Morais, Daniel Dantas e Cláudia Raia.

O Alexandre (Machado) e a Fernanda (Young) sempre nos surpreendem. A Vani e o Rui têm tanta velocidade que poderiam ser personagens de uma história em quadrinhos compara Fernanda Torres.

Para o ator, os atores transcenderam a atração televisiva.

O roteiro foi pensado como uma espécie de continuação da série, mas acho que Rui e Vani criaram vida própria Luiz Fernando Guimarães.

Depois de cada take, a dupla de atores corre para o monitor para ver o resultado, junto com Alvarenga. Os dois elogiam, reclamam e até sugerem algumas pequenas mudanças na marcação ou mesmo nos diálogos.

É o preço da intimidade construída ao longo dos anos que trabalhamos juntos, na televisão e no cinema. Eles podem exercer esse tipo de interferência porque conhecem os personagens tão bem quanto eu justifica Alvarenga. A gente discute tudo, muda roteiro. Somos artistas sem vaidades, o que é uma raridade na televisão.

Embora seja um desdobramento de um programa de TV, o diretor garante que há uma preocupação em dotar a franquia cinematográfica de uma identidade visual própria. Antes que os críticos acusem o filme de conter maneirismos televisivos, ele lembra que Os normais, a série de TV, tem raízes no cinema.

Todos que trabalhamos no programa, inclusive o Daniel Filho, viemos da realização de filmes, da publicidade, que é a elite do audiovisual brasileiro. Os normais já era uma brincadeira com o cinema, era raro usarmos closes, que é uma característica da teledramaturgia aponta o diretor, por trás de programas cômicos da Globo como Sai de baixo, Os aspones e A diarista.

A inclinação de Alvarenga para o gênero será renovada com Divã, sobre uma mãe de família que tem sua vida virada do avesso quando decide procurar um analista. O filme, protagonizado por Lilia Cabral, Cauã Reymond, Reynaldo Gianecchini e José Mayer, tem lançamento previsto para abril.

Tem cineasta que defende o cinema social ou que se preocupa com experiências de linguagem, e tem realizador que defende o humor e a sacanagem, que gosta de falar da sexualidade como se fosse um papo de bar. Eu pertenço a esse grupo, do qual faz parte Hugo Carvana e Domingos Oliveira. Sou uma versão mais jovem dessa geração.

Seriado marca retorno do diretor

ao policial

Histórias policiais não são exatamente uma novidade no currículo de José Alvarenga Jr. Há 12 anos o diretor participou da minissérie A justiceira, criada por Daniel Filho, no qual Malu Mader interpretava uma ex-policial federal que entra para um esquadrão secreto de combate ao crime organizado. A experiência no gênero será útil em Polícia reservada, seriado agendado para entrar no ar em abril, na Rede Globo. É o primeiro projeto do gênero a entrar na grade da emissora desde o fracasso das negociações com o diretor José Padilha para transformar o controverso filme Tropa de elite num seriado de TV.

O projeto foi apresentado à emissora em julho do ano passado. Nossa idéia era criar um universo policial que não caísse no clichê patropi. Também queríamos diferenciá-lo de experiências anteriores com o gênero, como Plantão de polícia aponta Alvarenga. Polícia reservada tem uma pegada forte, que tentará reproduzir a tensão de um país em que a polícia está associada à corrupção econômica e política, à violência, à desigualdade social, aos grupos de extermínio.

Flora, heroína da TV

O programa, a princípio programado para durar três meses, com episódios semanais, será estrelado por Murilo Benício e Milton Gonçalves. Os capítulos estão sendo desenvolvidos pelos romancistas e roteiristas de cinema Fernando Bonassi (Os matadores, de Beto Brant, Carandiru, de Hector Babenco) e Marçal Aquino (Ação entre amigos e O invasor, ambos de Beto Brant).

Parece a combinação perfeita de realidade e ficção num país que teve como maior heroína da TV a Flora, a vilanesca personagem de Patrícia Pillar na recém-encerrada novela A favorita compara o diretor.

Polícia reservada é uma pausa na seqüência de trabalhos cômicos do diretor. No fim dos anos 90, Alvarenga dirigiu episódios da série dramática Mulher, sobre o cotidiano de duas ginecologistas (Eva Wilma e Patrícia Pillar) de uma clínica carioca. O programa ficou no ar por duas temporadas e foi rodado em 35 mm. Em seguida veio A justiceira, outra experiência com o suporte cinematográfico.

Acho que a partir de agora pretendo intercalar comédia e humor, no cinema e na televisão. Não descarto, inclusive, a possibilidade de um dia voltar a fazer Os normais na TV. Mas não uma seria para um longo prazo, talvez um seriado mais curto, de cinco episódios.