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Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves comentam filme sobre os Titãs

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Ricardo Schott, Jornal do Brasil

RIO - Nos anos 80, época em que câmeras de vídeo portáteis eram quase um acessório exclusivo de cinegrafistas de casamentos e festas infantis, o titã Branco Mello carregava a sua para todo lado, como se fosse um dos instrumentos da banda. E gravava tudo o que acontecia com os Titãs nos bastidores, nos camarins, nas viagens, nos ensaios. A idéia de montar um filme com todo esse material já era antiga e começou a tomar forma em 2002, quando o músico uniu-se ao diretor Oscar Rodrigues Alves (responsável pelo clipe do hit Epitáfio, em 2001) para começar a conceber A vida até parece uma festa, documentário sobre o grupo paulistano, que, após exibição no Festival do Rio em outubro, estréia amanhã nos cinemas do Rio e São Paulo. O longa traz à tona uma série de imagens raras do grupo, em quase todas as suas formações desde a época em que eram um noneto, com o vocalista Ciro Pessoa, em 1982, até a elaboração do álbum Como estão vocês? (2003), incluindo ainda farto material da era pré-Titãs.

Comecei a gravar em 1986, quando adquiri a câmera. Ela passou a ser uma parceira nossa, um instrumento de trabalho. Depois fui conseguindo coisas antigas empolga-se Mello.

Antes de montarmos os Titãs, quase todos nós fizemos o espetáculo TV Eklipson, no Lira Paulistana, em 1982. Tinha um cara gravando e conseguimos as imagens em que aparecíamos cantando Bichos escrotos, quatro anos antes de a música aparecer no LP Cabeça dinossauro (1986).

Três dos futuros Titãs também podem ser vistos em outro momento inusitado: participando do programa de calouros da TV Tupi Olimpop, em 1980. Na época, Tony Bellotto, Branco Mello e Marcelo Fromer, então na faixa dos 18 anos, com um grupo de vocalistas, atendiam pelo nome de Trio Mamão e As Mamonetes e defendiam o reggaezinho folk Keds azul que ganhou nota 10 de um dos jurados, o cantor Wilson Simonal. Mas é o material da banda, tanto o garimpado de arquivos quanto o registrado por Branco Mello, o que mais chama a atenção.

"Sonho maluco"

Há também gravações televisivas feitas em videocassete, boa parte delas realizada pela mãe de Nando Reis, e que incluem momentos hilários, como a participação do octeto em 1985 no quadro Sonho maluco, do programa Viva a noite, apresentado por Gugu Liberato no SBT. Nas imagens, integrantes do grupo têm que salvar uma fã da teia do Homem-Aranha, transformado em vilão.

Em outro momento, os Titãs aparecem no Programa Silvio Santos recebendo o Troféu Imprensa, em 1988, e surpreendendo o apresentador com o pedido da platéia para que cantassem Bichos escrotos. Há também a banda tocando num Bar Mitzvah em 1984 cujo vídeo foi conseguido por acaso, quando o dono da festa encontrou Paulo Miklos na rua.

Nós gravamos poucos depoimentos exclusivos para o documentário, optamos por material de arquivo diz Alves, que com A vida até parece uma festa faz seu primeiro longa.

Os Titãs aparecem falando de determinados assuntos na época em que eles aconteceram. A saída do Arnaldo Antunes, em 1991, aparece explicada pelo Nando Reis numa entrevista, e você percebe claramente a carga dramática da situação. O mesmo acontece com a morte do Fromer (2001, por atropelamento) e a saída do próprio Nando (2002).

Assuntos como a prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto por porte de heroína, em novembro de 1985 (durante a qual Antunes, por ter passado a droga ao amigo, ainda foi processado por tráfico), não foram deixados de lado. E são ilustrados com o take de uma apresentação do grupo no Perdidos na noite, de Fausto Silva (Bandeirantes), na qual é feita uma homenagem aos dois músicos. Flagrados por Mello, os Titãs aparecem também em quartos de hotéis e em camarins, brincando, fazendo festa ou parodiando programas de auditório. Os diretores não deixaram de lado a presença das drogas e do álcool na história da banda, mas sem cenas explícitas.

Abordamos todos os temas polêmicos, não houve restrição alguma esclarece Mello.

Todos os Titãs e ex-Titãs adoraram a montagem, e os filhos do Fromer também viram o resultado.

Branco Mello, que hoje se dedica à gravação do 16º álbum do grupo (o primeiro feito integralmente pelos cinco integrantes restantes da banda, com produção de Rick Bonadio), deu grandes risadas recordando o que chama de as aventuras dos Titãs .

As imagens em que a gente aparece brincando numa cachoeira na Chapada dos Guimarães, por exemplo, eu adoro recorda o vocalista.

Quando o Oscar viu o material, ficou espantado. Disse que não sabia de nenhuma banda do mundo que tivesse isso tudo gravado.

O fã que leu a biografia A vida até parece uma festa, escrita por Luiz André Alzer e Hérica Marmo (2002), também pode conferir algumas passagens do livro, em movimento. Entre elas, apresentações da dupla de cantadores Mauro e Quitéria (que participaram de Õ blésq blom, de 1989) com a banda, a gravação do compacto Pipi popô/Marcha da demo, de 1988 (que reuniu os Titãs, Paula Toller, Liminha e Jorge Mautner sob a alcunha Vestidos de Espaço) e audição de Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987), com Herbert Vianna, Fausto Fawcett, Jorge Ben Jor e Cazuza.

Imagens de shows e clipes

E detalhes da gravação do álbum, incluindo uma bronca do produtor Liminha no baterista Charles Gavin, que insistia em incluir viradas no arranjo de Violência música que só entraria no álbum como bônus de sua versão CD, lançada nos anos 90. Em meio a isso, muitos clipes (como os de Cabeça dinossauro, com todos cobertos de lama), imagens de shows memoráveis e recordações de sucessos como Sonífera ilha, Insensível, Polícia e Marvin.

O filme vai agradar até a quem não é fã da banda. Vai ser excelente para a molecada que ouve rock. Muitos garotos de 16 anos sequer lembram que Arnaldo Antunes foi um titã ressalta Alves, fanático pela tenacidade do grupo.

- Todos são talentosos e multifacetados. E sempre quiseram viver o mundo pop, mas criando seu próprio estilo.