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Especialistas discutem um possível mundo de padrões

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Alexandre Werneck, JB Online

RIO - A empreitada contida no título acima vem de uma metáfora recorrente nas ciência sociais, mas que nunca fez tanto sentido em nossas vidas. Com a atual crise econômica mundial, sem precedentes desde 1929, o mundo repensa seu estatuto.

E a ir além de derivativos, hipotecas, ações, taxas de juros. Não à toa, o premiê britânico Gordon Brown e, logo depois, o presidente francês Nicolas Sarkozy proclamaram: é preciso um novo pacto para o capitalismo.

Os dois sugeriram, há algumas semanas a feitura de uma nova Bretton Woods , ou seja, uma nova conferência como as que aconteceram em 1944 na cidade do Estado de New Hampshire, EUA para discutir as bases do sistema financeiro mundial.

Na prática, o principal desenrolar daquelas reuniões (desenrolar que só se concluiu nos anos 1970) foi o fim do padrão ouro e a adoção do padrão dólar nas trocas mundiais radicalizado pelo que é apontado por muitos como o fim do modelo de BW, o desatrelamento entre dólar e ouro.

Fora do economês: mudou não apenas a economia, mas também ajudou a mudar o mundo: da solidez dos projetos de futuro de longo prazo e dos patrimônios reais para aquilo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman tem chamado de mundo líquido , um estado de incerteza e riqueza abstrata, virtual.

Por isso mesmo, do olho do furacão, o Idéias resolveu propor a pergunta: diante da reivindicação de que o capitalismo precisa de padrões mais sólidos, qual pode ser, no futuro, o estado físico do mundo?

Pai da metáfora, Bauman diz que não entende nada de padrão ouro e padrão dólar. Mas repete ao Idéias, por e-mail, o que escreveu à revista francesa Marianne:

Até agora, não há muitas indicações de que estejamos nos aproximando de algum tipo de mudança de paradigma que pudesse se chamar de mundo pós-líquido .

Não é o que pensa, por exemplo, o economista Carlos Lessa, professor emérito da UFRJ e ex-presidente do BNDES. Ele relembra a primeira grande crise do capitalismo, em 1630, quando a Holanda dominava a economia mundial.

Naquele momento, deu-se o que ficou conhecido como a febre das tulipas , quando os bulbos da flor começaram a alcançar preços elevadíssimos e se tornaram elemento de especulação mais ou menos como o crédito imobiliários nos Estados Unidos hoje até que os preços despencaram, provocando bancarrotas e levando a uma revisão das relações de poder: caída a Holanda, a Inglaterra tomou as rédeas.

As sociedades que emergem das grandes crises são sensivelmente diferentes das que entraram nas crises. Nenhuma grande crise passou sem uma profunda revisão do poder hegemônico diz Lessa.

A também economista Leda Maria Paulani, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, vai além de Bauman. Para ela, é improvável que se dê alguma mudança no sistema mundial:

Quem terá o poder, quem é que vai dizer aos Estados Unidos que a moeda deles não poder ser mais o padrão mundial? pergunta. Além disso, por mais abalo que tenha sofrido, a riqueza financeira ainda é muito grande e, logo, a força contra mudanças é muito grande.

Pesssimismo que o psicanalista Jurandir Freire Costa, professor do Instituto de Medicina Social da Uerj, que tem sido observador da maneira como as relações humanas são influenciadas pelo contexto político e econômico em obras como O risco de cada um não se permite.

Esta crise é um momento que ele define como providencial . Justamente para a reivindicação de um retorno à solidez que, em gerações passadas permitia projetos de longo prazo e utopias de futuro.

O abalo veio recolocar os Estados Unidos em um lugar de mais um país e não como xerife do mundo. É o momento para construir um sujeito com respeito pela política, preocupado com a discussão das soluções e não com o discurso único. Um dos pontos mais importantes do que está acontecendo é que a política voltou a ser valorizada diz Freire Costa.

Para o antropólogo argentino Federico Neiburg, professor do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, onde coordena o Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia, o principal traço de alguma solidez maior é que a crise está colocando em evidência algo que sempre esteve presente, mas nos últimos tempos, mais liberais , parecia menos evidente:

O Estado está sempre presente e, no mundo mais fluido, estava lá, regulando a desregulação. Agora, deve igualmente regular um retorno, seja ele qual for.

Análise em que é seguido por Lessa, em seu estilo professoral:

Olha, na hora do vamos-ver, todos os liberais correm para o Estado. Na hora em que as coisas se desarrumam, as pessoas acreditam que uma ação terá de ser coordenada por uma instituição maior que cada um e que o mercado.

Para Neiburg, entretanto, há uma diferença importante entre a percepção da crise na América Latina e no mundo desenvolvido:

Países que tiveram uma longa história de inflação tiveram gerações inteiras educadas em viver sob desequilíbrios financeiros. Essas populações incorporam a linguagem econômica ao cotidiano e se adaptam mais rápido.

Os americanos não vivem algo assim desde 1929, e isso é determinante para o paradigma que deve surgir no futuro.

A velocidade de incorporação cognitiva das pessoas depende muito de como essa crise vai se resolver diz Freire Costa. Ela varia de acordo com a capacidade dos governantes e da mídia de produzir um discurso pedagógico que promova o novo modelo.

O psicanalista dá como exemplo a onda de otimismo produzida na Europa depois da Segunda Guerra Mundial, quando governos e comunicação de massa conseguiram apresentar o modelo anterior:

O horror ao que havia acontecido, sobretudo ao nazismo, foi central naquele momento.

Sobre ser muito difícil uma alteração no sistema, Carlos Lessa é taxativo e toca em um problema igualmente de estado físico:

É verdade que ninguém vai colocar o porrete em cima da mesa para dizer aos Estados Unidos que a situação tem que mudar, mas acontece que eles, os próprios EUA, estão se liqüefazendo! E mais que isso: o pior ainda não passou! Eles terão que conversar sobre a solução.