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LONDRES - O roteirista Ian McEwan, de Desejo e reparação, estréia esta semana como libretista - pessoa que escreve o texto ou argumento de uma ópera - em For you, co-escrito com o compositor Michael Berkeley e que narra a história de um maestro egocêntrico que humilha uma violoncelista antes de levá-la para a cama
Em entrevista ao jornal Sunday Times, o autor falou sobre sua nova empreitada e destacou sua paixão pela música pop.
Com que freqüência você vai à ópera?
Ian McEwan: Raramente. Algumas óperas realmente me deixam impressionado, mas a maior parte tem enredos terríveis. O maior problema é a distância entre a qualidade da música e a infantilidade do drama. Quando estava pensando em escrever esse libreto, queria algo de realismo psicológico. Também sabia o que não queria: elementos sobrenaturais. Nada de contos de fadas. Acho os enredos de Verdi fantásticos.
Por que resolveu fazer o libreto?
Ian McEwan: Bem, eu não teria feito se não fosse amigo do Michael (Berkeley). Chegamos à conclusão que uma história de obssessão sexual seria um bom assunto para levar o enredo adiante.
Assim como em Desejo e reparação, o enredo trata de um grande mal entendido. Por que esse é um potente artifício para você?
Ian McEwan: Eu gosto desse momento de dissonância quando pessoas são persuadidas a não acreditar em algo que vêem ou ouvem. Como os que não querem acreditar que Stalin fez pacto com os nazistas. Essa abordagem é um bom artifício nessa ópera, e proporciona os melhores momentos do musical.
Você gostaria de escrever outra ópera com Michael?
Ian McEwan: Gostaria sim. Musicais tem ido por uma direção suave e doce recentemente, e eu acho que seria interessante fazer algo mais 'irritante'. E eu confio na habilidade de Michael. Ele é capaz de escrever canções que as pessoas continuarão assoviando daqui a 300 anos.
Foi difícil para você, como roteirista, escrever em um estilo que é muito mais condensado?
Ian McEwan: Não, porque esse é o jeito que eu escrevo. Muitos escritores pensam em uma coisa que os leva a dez outras coisas, enquanto eu penso em dez coisas e escrevo sobre apenas uma delas.
Você pediu que o libreto fosse projetado com legendas.
Ian McEwan: Não queria que o público assistisse à peça apenas com um resumo da ópera, e nunca dá para entender todas as linhas, especialmente as que são cantadas em uma região muito aguda. Existem várias músicas, principalmente do universo pop, que eu sempre amei e que só fui descobrir o que as letras diziam anos depois.
Como a música pop entrou em sua vida?
Ian McEwan: Quando eu tinha 12 anos, gostava de bandas de jazz de Nova Orleans. Em 1964, entrei no blues elétrico quando um amigo da escola disse que seu cunhado tocava baixo em uma banda de blues. Acabei assistindo ao Jack Bruce (baixista da banda Cream, que tinha Eric Clapton na formação) no início da carreira. Foi sensacional. Eu nunca gostei das coisas de LIverpool dos Beatles. Também gosto de jazz, mas meu gosto parou no disco Kind of blue, do Miles Davis. Com 16 anos entrei na música clássica, depois de ouvir Bach, o que me fez começar a estudar piano. Também aprendi um pouco de banjo e flauta, que ainda toco quando não há ninguém em casa!