Juliana Krapp, Jornal do Brasil
RIO - Aos 84 anos, o escritor Salim Miguel assume, divertido, que o protagonista de seu novo romance, Jornada com Rupert, o persegue desde a infância.
Ou seja: desde os tempos em que, vindo do Líbano, passou a conviver com os alemães predominantes em Biguaçu, nas proximidades de Florianópolis, onde foi alfabetizado na língua de Goethe.
Por isso, o livro que o autor lança nesta quarta-feira na Livraria Argumento do Leblon, às 19h, dormiu durante 58 anos no fundo de uma gaveta.
As primeiras anotações a darem conta de Rupert, o jovem rebelde que sonhava em trocar Biguaçu pelo mundo, datam de 1948. Em 2006, ao mexer em alguns papéis, Miguel esbarrou no esboço de romance. E, sob a influência insistente da família, decidiu retomá-lo.
Costumo dizer que não saio atrás de personagens, nem de temas: eles é que me procuram. Rupert não saía do meu pé. Volta e meia me perguntava: Quando é que vai terminar aquele romance comigo? brinca.
O Sul babélico
O resultado é que, em Jornada com Rupert, aparecem algumas das características mais marcantes da trajetória narrativa de Miguel: a mistura de memória e ficção; o olhar sobre os imigrantes; o cotidiano de um Sul babélico além de alemães e libaneses, a região foi formada por açorianos, portugueses, italianos, negros e índios.
Com uma grande diferença, no entanto, para o padrão de seus outros romances: desta vez, o cenário não é Florianópolis, Biguaçu ou Rio, palcos por excelência das histórias de Miguel, e sim o Vale do Itajaí. Revendo as anotações originais, o autor decidiu deslocar o personagem no mapa catarinense.
Dessa forma, pôde passear pela história da construção de Blumenau, uma das cidades mais importantes do Estado. E, ainda, atravessar 100 anos de colonização, com fragmentos da história do Brasil, da Alemanha e até da Guerra Civil Espanhola.
A linha central do romance se passa em apenas um dia, durante uma viagem de trem de Rupert, na década de 40 explica o autor.
Já a história de fundo, que comporta os 100 anos de colonização, desdobra-se em fragmentos descontínuos, sem ordem cronológica. É o meu jeito de contar.
Esse não é, contudo, um romance histórico, ressalta Miguel. Se recuperou fatos em sua própria memória e em registros históricos, também fez questão de não abrir mão do ficcional.
Além de Jornada com Rupert, Miguel lança também a edição revista de Nu na escuridão, premiado romance no qual, usando traços autobiográficos, narra a chegada ao Brasil de uma família de libaneses.
Com 30 livros publicados, entre romances, novelas, contos e depoimentos, o escritor é considerado o principal nome literário de Santa Catarina. Chama a atenção, porém, para a existência de uma nova geração de bons autores catarinenses, que permanecem obscuros no resto do país:
Quem não tem a chance de publicar pelas grandes editoras do eixo Rio São Paulo não acontece no Brasil reclama.
Não sou nem pior nem melhor do que os jovens escritores de minha terra: apenas tive a sorte de trabalhar no Rio e ganhar visibilidade com isso.
Miguel é também um renomado jornalista: passou pelas principais redações do país, incluindo o Jornal do Brasil. Em Santa Catarina, ajudou a criar o Grupo Sul, coletivo de artes conhecido por ter feito o primeiro longa-metragem catarinense, O preço da ilusão.
Agora, um problema de visão obriga Miguel a limitar suas leituras mas o escritor não admite refrear sua produção. Tanto que, na viagem ao Rio, traz debaixo do braço os originais de uma nova novela.
Penso em chamá-la Ganja, que é uma gíria do Sul para as tradicionais, e malvadas, brigas de canarinho.