Bolívar Torres, Jornal do Brasil
SÃO PAULO - O título da exposição Cinema, sim Narrativas e projeções, que será inaugurada nesta terça-feira à noite, no Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, pode dar a idéia de que o espaço vai ganhar uma mostra de filmes.
O foco do evento, no entanto, não é exatamente o cinema ao menos não o que estamos acostumados a assistir. Aqui, o audiovisual sai de seu habitual cubo branco como são conhecidas as salas de projeção e mergulha na caixa-preta do ambiente expositivo, explorando as amplas possibilidades do espaço arquitetônico.
Trata-se de uma forma diferente de exibir obras cinematográficas, que vem se tornando cada vez mais comum nos circuitos dos museus, galerias e centros dedicados à arte-mídia. Na exposição, artistas internacionais, como o inglês Anthony McCall, e brasileiros, como Milton Marques e Rosângela Rennó, exploram novas formas de compor e exibir imagens.
Queremos que as pessoas venham trazendo na cabeça o senso comum que possuem do cinema e, quando chegarem aqui, vejam que a exposição vai além disso, abre outras possiblidades explica o curador Roberto Cruz.
Essa não é uma exposição sobre filmes, mas mantém uma idéia próxima, já que trabalha com a imagem para contar histórias, apenas transferindo o espaço cinematográfico para um ambiente de exposição.
Criar narrativas dentro e através de espaços expositivos é um fenômeno recente. A partir da década de 90, com o surgimento de novas tecnologias e a melhoria da qualidade da imagem dos projetores de vídeo, a convergência entre o cinema e as artes plásticas se tornou inevitável.
Antes, os artistas que trabalhavam com vídeo viam seu trabalho ser engolido quando o projetavam em grandes espaços lembra Cruz.
Até então, o vídeo não recebia atenção, já que não ganhava a legitimidade da exposição.
Um dos artistas mais favorecidos pelo avanço tecnológico é Anthony McCall, autor de uma série de projetos denominados Solid light films e que exibe na Cinema, sim uma obra de forte impacto sensorial: You and I, horizontal III. Com a luz de dois projetores em vídeo, lança no ar de uma sala escura diversas linhas azuladas; elas se juntam, formando desenhos tridimensionais, que lembram túneis de luminosos.
Sem as limitações da tela única e frontal e de um discurso linear e seqüencial, as obras ampliam a linguagem audiovisual. A japonesa Hiraki Sawa constrói um microuniverso surreal no interior de uma típica casa inglesa, graças a uma projeção de vídeo em três canais (Going places, sitting down).
Já a americana Eve Sussman, fundadora da Rufus Corporation, constrói uma atmosfera visual perturbadora para redefinir o processo de criação da tela As meninas, famosa obra pintada por Diego Velásquez em 1656. Exibida em single channel (tela única de projeção), com uma mise-en-scène rigorosamente coreografada e movimentos fluidos de câmera, a obra faz o espectador sentir-se praticamente dentro dos quatro cantos da sala onde estão os personagens imortalizados pelo pintor espanhol.
Manter a unidade de espaço e construir relações entre todas as obras foram os maiores desafios para a curadoria e a museografia assinada por Waldir Lopes Jr, diretor de arte do último longa de Walter Salles, Linha de passe.
Nossa intenção é criar um espaço de imersão esmiuça Cruz.
Como havia muitas escadas no ambiente, as transformamos em espaços transitórios, que não tiram o espectador bruscamente de um lugar para outro. A intenção é que, entre um andar e o outro, o visitante permaneça com as imagens projetadas na sua mente.