Wilson Martins, JB Online
RIO - Pode-se perguntar se Paulo Coelho acredita no que escreve, mas os seus leitores (no mundo inteiro!) certamente acreditam, propondo a questão essencial no que se refere às expectativas de leitura em largas camadas populacionais. Se leitores literariamente educados esperam a integração na realidade por meio da verossimilhança, ou seja, a impressão da verdade, os outros, ao contrário, buscam na ficção o absoluto ficcional, a fuga do quotidiano e suas misérias, o maravilhoso compensatório. Com isso ele próprio se situa fora da literatura, no que vai, de minha parte, nenhuma intenção depreciativa, antes o desejo de situar o fenômeno em seu campo próprio, a sociologia do gosto e da cultura, a que pertencem os grandes movimentos de massa, aí incluídos, claro está, os interesses editoriais, além, neste caso, a conjuntura atual do misticismo coletivo e universal, inclusive em matéria religiosa propriamente dita, que bem pode ser a origem de tudo.
Com o seu último livro (O vencedor está só. Rio: Agir, 2008), parece, nas primeiras páginas, que passou do sobrenatural para o natural, dos anjos e emissários celestes para a sórdida sociedade dos negocistas e corruptos, das almas virginais e eleitas para as prostitutas de luxo, do mundo do trabalho para o carreirismo sem escrúpulos. Engano que as páginas seguintes se encarregam de desfazer: é o mesmo velho Paulo Coelho, moralisante apologal que tomou o Festival de Cannes como metáfora do inferno, onde há crimes, sofrimento e ranger de dentes, para nada dizer da ausência de Deus.
Basta citar algumas características. Referindo-se aos personagens principais (Olivia, Javits, Igor, Ewa), escreve ele: Mas o espírito não tem nome, é a verdade pura, está habitante aquele corpo por determinado período, e um dia o deixará sem que Deus se preocupe em perguntar 'quem é você?' quando a alma chega diante do julgamento final. Deus perguntará apenas: 'Você amou enquanto estava vivo?' A essência da vida é essa: a capacidade de amar, e não o nome que carregamos em nossos passaportes, cartões de visita, carteiras de identidade. Os grandes místicos trocavam seus nomes, e às vezes os abandonavam para sempre. Quando perguntam a João Batista quem ele é [...] , etc., etc., percebe-se o tom, a linguagem e o o gabarito intelectual das pregações evangélicas.
Ou, em plano mais temporal, criticando a enfermidade moral que ele, aliás, conhece muito bem: A síndrome da celebridade capaz de destruir carreiras, casamentos, valores cristãos, e que cegava os sábios e os ignorantes. Grandes cientistas que foram agraciados com um prêmio importante, e por causa disso abandonaram as pesquisas que podiam melhorar a humanidade, e passaram a viver de conferências que alimentam o ego e a conta bancária. [...] O promotor de justiça que trabalha duro defendendo os direitos de pessoas menos favorecidas decide concorrer a um cargo público, ganha a eleição, e passa a sejulgar imune a tudo até que um dia é descoberto em um motel com um profissional do sexo, pago pelo contribuinte .
É, como se vê, o evangelista profano, havendo, por isso, pouco risco de que venha a parder os seus leitores, antes pelo contrário, pois confirma o folclore da sabedoria popular. Nessas perspectivas, a expedição a Cannes faz simetria invertida com a peregrinação a Compostela, mas agora é a peregrinatio ad loca infecta: Pode imaginar como será o próximo Festival: pessoas precisando usar cartões magnéticos mesmo nas festas de praia, atiradores de elite em todos os tetos, centenas de policiais à paisana misturando-se com a multidão, detectores de metal em cada porta de hotel, onde grandes filhos da Superclasse terão que esperar até que policiais revistem suas bolsas [...] ordenem que os senhores de cabelos grisalhos levantem os braços e sejam revistados como um criminoso qualquer, conduzam as mulheres a uma única cabine de lona instalada na entrada [...] onde devem esperar pacientemente em uma fila para serem revistadas [...] .
O Dia do Juízo está próximo: A cidade começará a mostrar sua verdadeira face. Luxo e glamour serão substituídos por tensão, insultos, olhares indiferentes de policiais, tempo perdido. Isolamento cada vez maior desta vez provocado pelo sistema, e não pela eterna arrogância dos eleitos. Custos pribitivos que caem nas costas dos contribuintes [...] Cannes começa a morrer [...] Querem voltar atrás, mas é impossível. Cannes continua a morrer. A nova Babilônia é destruída. A Sodoma dos tempos modernos está sendo riscada do mapa .
O surpreendente nessa história é que o grande criminoso escapa sem ser punido nem por Deus, nem pelos homens.