Macksen Luiz, Jornal do Brasil
RIO - Os limites do tempo pedem emprestado a Machado de Assis a sua Capitu para dividi-la em duas, a madura e a jovem, que dialogam sobre inicio e fim.
Em A fruta e a casca, em cartaz na Casa da Gávea, Manoel Prazeres se utiliza da personagem machadiana como refração de uma mesma sensibilidade em momentos diferentes.
Uma está encoberta pela outra, sendo única, e o autor estabelece com a narrativa de Machado a distância temporal, não para desvendar mistérios ou conjecturar possibilidades, mas para depurar sentimentos.
No diálogo entre elas, impõe-se a circularidade dos momentos, completando o ciclo vital da personagem. O texto dispõe-se a jogar com os extremos para requintar a filigrana, de tal modo que essa conversa entre Capitus se torna delicado monólogo interior, mantendo profunda identidade com o romance de origem, mas com plena autonomia teatral.
O diretor, também Manoel Prazeres, cria jogo cênico detalhista, em que cada movimento das duas atrizes corresponde a aproximações dos tempos para criar unidade emocional.
O diretor, no entanto, desacredita em parte na teatralidade de sua narrativa, ao provocar zonas vazias, como a da coreografia das atrizes.
A rusticidade do cenário de Letícia Ponzi se complementa pelos seus figurinos em tecido cru, que demarcam bem semelhanças e diferenças.
A iluminação de Lara Cunha é um tanto desequilibrada na sua busca de efeitos, nem sempre bem-sucedidos. Helena Varvaki vive com emoção, que às vezes escapa à sobriedade da sua interpretação, a Capitu no exílio suíço. Bianca Comparato tem atuação na medida, como a Capitu em formação.