Saiba o que vai acontecer no Casarão de Austregésilo de Athayde

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Após as ceias de Natal, o jornalista e escritor Austregésilo de Athayde (1898-1993) pedia licença, sentava-se ao piano e tilintava copos para chamar a atenção de filhos e netos.

Satisfeito, e rodeado por seus familiares, pendia o corpo para frente e varava a madrugada deitando teclas e se deleitando em melodias natalinas.

No fim da década de 50, os quatro amplos salões que abrigavam respeitáveis doutores, imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL), magnatas da informação como Assis Chateaubriand e até o então presidente da República, Juscelino Kubitschek, eram uma usina cultural e de informação.

A partir deste sábado, às 10h30, pelas mãos da filha de Austregésilo, Laura Sandroni, e de sua neta, Clara Sandroni, o terreno de mil metros quadrados localizado no Cosme Velho vira o Casarão Austregésilo de Athayde, na abertura do evento Arte em Laranjeiras e Cosme Velho.

No dia da inauguração oficial do espaço estão previstas as exposições Hora do Brasil.net e Certidão, mostras de gravuras, esculturas e fotografias e um bate-papo com a autora de livros infantis Luciana Sandroni, além da encenação das peças Transtorno cênico feminino e A casa.

É um orgulho reabrir este casarão. Lembro bem das reuniões e jantares que meu pai fazia com muitos dos imortais da ABL conta a filha do patrono, Laura, 74 anos, escritora e fundadora da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil.

Graça Gomes é a produtora cultural da mítica casa. Pretende transformá-la num pólo de desenvolvimento humano e de conhecimento ligado às mais variadas manifestações artísticas e culturais.

O casarão de quatro quartos e quatro espaçosas salas vai oferecer guarida para produção de peças teatrais, shows, exibição de filmes, exposição de artes plásticas, espetáculos de dança, além, é claro, de uma série de encontros literários.

Meu sonho é atrair cada vez mais jovens e estudantes para cá frisa Laura, que trabalha há 40 anos com literatura infantil.

Vai ser um lugar com programação mensal bastante variada de oficinas e workshops.

Coordenadora do Casarão, Clara Sandroni já conta com pelo menos cinco projetos aprovados pelo MinC respirando o lugar. A criação da primeira biblioteca infanto-juvenil do bairro, uma grande exposição sobre a vida e a obra de Austregésilo de Athayde, a realização de um longa-metragem documental contando a vida do imortal, além da estruturação de visitas guiadas pela casa.

Cosme Velho e Laranjeiras acumulam uma imponente tradição de moradores ilustres no mundo da literatura. Machado de Assis, Cecília Meireles, Alceu Amoroso Lima e Cornélio Pena, entre outros imortais, fincaram residência no bairro.

São espaços ociosos, mas de uma beleza sem igual. Temos que fazer crer que qualquer manifestação cultural possa ser feita neste ambiente ressalta o organizador da programação de abertura do Casarão, Eduardo Torres.

Histórias e lembranças de muitos encontros, discussões e projetos de Austregésilo foram também inspirados pelo bairro e seu casarão, adornado por uma grande variedade de frondosas árvores. Na biblioteca da casa, dezenas de estantes e prateleiras desfilam centenas de grandes obras da literatura mundial e brasileira.

Informação bastante para colorir até hoje o universo dos filhos e netos do imortal Austregésilo de Athayde, que a partir de agora poderão ser lidos, revistos e pesquisados.

Meu pai, como jornalista, escritor e presidente da Academia Brasileira de Letras, influenciou a formação intelectual de filhos e netos rememora Laura.

Hoje, não há um sequer que não trabalhe com arte ou cultura. Espero que esse legado sirva de inspiração para muitas outras pessoas.

No corredor principal da casa, que dá acesso ao closet e ao quarto de Austregésilo, paredes brancas estampam uma grande variedade de quadros e desenhos ilustrando o imortal pousado com o fardão da ABL.

Em seu quarto, figuram um piano de parede, uma mesa de trabalho de madeira e um lustre negro de aço.

Em um outro ambiente, anexo ao salão principal da casa, um bonito piano meia cauda divide espaço com uma mesa de jantar ovalada, além de um móvel de vidro que abriga dezenas de porta-retratos e gravuras de Austregésilo, com a família, sozinho ou acompanhado por personalidades em diferentes momentos da sua vida.

Medalhas, condecorações e prêmios recebidos pelo terceiro ocupante da cadeira número 8 da ABL também podem ser vistos. Um arsenal de informações que ilustra a importância do homem que foi destacado, em 1948, como delegado do Brasil na 3ª Assembléia da ONU, em Paris, ocasião em que participou da comissão responsável por redigir a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Braço direito de Assis Chateaubriand, Austregésilo de Athayde acompanhou, como diretor de jornalismo, o magnata das mídias em todas as aquisições dos Diários Associados. Pelo trabalho na revista O Cruzeiro, foi laureado nos EUA em 1952 com o prestigiado prêmio Maria Moors Cabot. Na Academia Brasileira de Letras, ficou 42 anos (de 1953 até a morte), 35 deles como presidente.

Assis Chateaubriand, em 1924, puxou meu pai pelo braço e disse a ele: Vambora caboclo, vamos comigo comprar O Jornal . Era o primeiro de uma série de publicações. Trabalharam juntos a vida toda e nunca tiveram problemas. Meu pai conseguia aturar todas as loucuras dele recorda Laura Sandroni.

Serviço

Casarão Austregésilo de Athayde Rua Cosme Velho, 599, Cosme Velho.

Aberto ao público no sábado, das 10h30 às 18h. Entrada franca.

Exposições (o dia todo): Hora do Brasil.net, fotos de Lena Amorim, Luiz Sombra e Yoav Passy; Certidão, fotos de Diogo Montes; gravuras do Atelier Villa Venturoza.

Biblioteca infantil e bate-papo com Luciana Sandroni, às 10h30. Recitais de música de câmara com o Coral Avaraté (11h) e Trio Rio de Janeiro (13h).

Apresentação de dança flamenca: às 12h30. Ensaio aberto da peça A caixa: às 11h. Peça Transtorno cênico feminino, com a companhia Célula Artística Beco das Flores: às 17h.