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Entre a alta e a baixa literatura

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Dau Bastos*, Jornal do Brasil

RIO - O ano de 2008 tem um significado especial para a literatura brasileira, ao fazer coincidir o centenário de morte e vida, respectivamente, de Machado de Assis e Guimarães Rosa. O que poderia passar por simples acaso assume ares de fenômeno raro, na medida em que os dois se complementam na constituição de uma espécie de ponte sólida e elevada que se projeta até o presente. Sem reduzir outros romancistas igualmente valiosos como Clarice Lispector e Graciliano Ramos é inegável que os aniversariantes foram favorecidos de tal modo pela natureza e souberam absorver tão bem as descobertas feitas até o tempo em que viveram que parecem insuperáveis.

Mergulho na obra

Felizmente, porém, o campo literário não comporta a idéia de recorde: os novos prosadores podem mergulhar na obra do carioca e do mineiro sem medo, certos de estarem num oceano capaz de tonificar suas próprias buscas. Assim se portou o jovem dublê de escritor e estudante de pós-graduação Fábio Flora, no desenvolto livro resultante de sua dissertação de mestrado. Ao longo de uma centena de laudas, usou o léxico rosiano para condimentar o descortino do surpreendente interesse do inventor de Diadorim pelas narrativas de massa.

Sim, somos informados que Guimarães gostava muitíssimo de livros policiais e adorava assistir ao desenho animado Dumbo com as filhas . Ninguém pode negar o estatuto de ficção a esse tipo de narrativa, afinal resulta do uso da imaginação e pode proporcionar fruição estética. Era de se esperar, porém, que, mais de um século depois dos primeiros brados vanguardistas, as livrarias destacassem também os textos experimentais, nos quais geralmente se chega mais longe no aproveitamento artístico do idioma. Como o mercado continua monopolizado pelos escritos nascidos da repetição de fórmulas, desconcerta imaginar o pai de Riobaldo comprando um romance de gênero.

Não bastasse o fato de consumir esse tipo de ficção, Guimarães engendrou alguns produtos de massa nos tempos de rapaz. Dos 21 aos 22 anos, publicou quatro contos em periódicos cariocas aos quais os especialistas invocados por Flora associam epítetos como gótico, pulp fiction e outros indicadores de respeito a estruturas conhecidas pela pouca rentabilidade formal, mas também pela grande eficácia em prender a atenção. Seriam necessárias quase duas décadas para que o ficcionista ressurgisse estilhaçando a sintaxe e implodindo a semântica, portanto completamente desmoldado, a fundir ecos da fala sertaneja a fiapos de diferentes idiomas, em legitimação definitiva das propostas modernistas.

Mesmo depois de se tornar o escritor nacional mais prestigioso do século 20, Guimarães voltou à narrativa eletrizante: ainda em 1962, redigiu um dos capítulos do romance policial coletivo O mistério dos MMM, organizado pelo amigo João Condé. Eis mais um reforço à hipótese, levantada por Flora, de que o pendor para o lúdico e o cultivo do bom espírito infantil nas diferentes fases da vida possibilitaram ao cordisburguense manter uma relação tão prazerosa com a produção que todas as frentes se mostraram divertidas.

O pesquisador defende ainda que assimilemos, a um só tempo e sem preconceito, as ditas alta e baixa literaturas. Desenvolve tal argumento citando o todo da produção rosiana, na qual realmente se encontram tanto a fabulação típica dos oitocentos quanto o trabalho com a linguagem desenvolvido nos novecentos. Hábil na construção de seu ponto de vista, o analista cruza o pensamento do escritor e pesquisador Bráulio Tavares e do ensaísta e professor Ivan Teixeira, dos quais explora afinidades e divergências. O comparatismo entre os dois possibilita a atribuição de uma antropofagia propriamente oswaldiana a Guimarães, que passou da ótima digestão de tudo à produção de excelência mediante o exercício de uma liberdade formal jamais vista nos trópicos.

Publicar ou perecer

Fazendo jus ao seu objeto de estudo, Fábio realiza um sonho cada vez mais acalentado nos cursos de letras, que consiste em combinar os sensos crítico e estético para produzir textos expositivos merecedores de vir a lume. Demonstra que o enfrentamento do desafio contido na frase publicar ou perecer pode dar em reflexão fina, expressa com clareza e elegância capazes de agradar aos apaixonados por literatura.

* Professor de literatura brasileira da UFRJ e autor de, entre outros, Machado de Assis: num recanto, um mundo inteiro (Garamond).

Segundas estórias: uma leitura sobre Joãozito Guimarães Rosa

Fábio Flora.

Quartet. 132 páginas. R$ 25