Toninho Spessoto*, Jornal do Brasil
RIO - Do pós-punk ao hard rock, passando pela psicodelia, a banda The Cult já abraçou vários estilos e tornou-se um dos nomes mais emblemáticos do rock britânico dos anos 80. De volta ao Brasil pela quarta vez, Ian Astbury (vocais), Billy Duffy (guitarra), Chris Wise (baixo), Mike Dimkich (guitarra) e John Tempesta (bateria) encerram a turnê no Circo Voador, na Lapa, no dia 13. No repertório, sucessos e canções do álbum mais recente, Born into this (2007).
Astbury, líder do grupo, falou de Curitiba ao Jornal do Brasil sobre a nova turnê, analisou a carreira da banda e comentou sua experiência com os Doors, com quem fez uma excursão por vários países (incluindo o Brasil) substituindo o mítico vocalista Jim Morrison.
JB: Esta é sua quinta passagem pelo Brasil, a quarta com o Cult. Como vê a recepção da platéia brasileira?
Ian: Nas três vezes em que estive aqui com o Cult e na vinda com os Doors, o que mais me impressionou foi o calor do público brasileiro. É impressionante, todos conhecem as canções e dão muito carinho e energia aos artistas. É sempre bom fazer shows no Brasil.
JB: O que vocês apresentarão para o público carioca?
Ian: Clássicos e canções do nosso mais recente álbum, Born into this. Quem for ao show no Circo Voador ouvirá o que de melhor o Cult fez até hoje. Estarão no repertório canções como She sells sanctuary, Edie, Painted on my heart e Love removal machine, que não podemos deixar de tocar em lugar nenhum.
JB: Olhando em retrospecto, como você analisa a história do Cult, desde o surgimento da banda, em 1984, até aqui?
Ian: Sinceramente não me interesso pelo que passou. Temos energia e gás suficientes para nos preocuparmos apenas com o futuro. O passado é história e aprendemos com ele, mas penso somente no que está por vir. Não vivemos, nem a banda nem eu, de nostalgia.
JB: Apesar de não viverem de nostalgia, o que você sente que mudou no som do Cult com o passar do tempo?
Ian: Tudo mudou. Em nossos oito álbuns de estúdio tivemos estruturas de produção diferentes, sempre em mutação. Jamais fizemos o mesmo disco duas vezes...
JB: Quais são os álbuns mais importantes do Cult na sua opinião?
Ian: Todos têm seus méritos e são importantes, cada um à sua maneira. Não seria justo destacar ou escolher apenas este ou aquele...
JB: Como vê a cena contemporânea do rock? Há alguma banda que chame sua atenção?
Ian: Sim, há muita coisa interessante por aí, principalmente no chamado circuito alternativo. Gosto de Justice, Blonde Redhead, Black Kids, Boris, MGMT e Unkle. Uma das minhas favoritas é a banda brasileira CSS (ou Cansei de Ser Sexy).
JB: O que o CSS tem de diferente?
Ian: Energia e a capacidade de criar melodias envolventes.
JB: Que tipo de música está ouvindo atualmente?
Ian: Música clássica, principalmente. Tenho ouvido muito Chopin, Mahler e Elgar. Mas não deixo o eletrônico de fora. Kraftwerk é obrigatório para mim.
JB: Como foi sua experiência com o The Doors?
Ian: A concretização de um sonho. Os shows ao lado de Ray Manzarek e Robbie Krieger (tecladista e guitarrista originais dos Doors) foram os mais intensos e emocionantes de que participei até hoje.
JB: Muita gente criticou sua performance, fazendo comparações com Jim Morrison (1943-1971). Isso chegou a o incomodar?
Ian: De modo algum, pois jamais pensei em imitar Jim Morrison. Ele é eterno, tomar seu lugar é absolutamente impossível. O que eu quis, e consegui, foi homenageá-lo.
JB: O Cult está preparando novo álbum?
Ian: Não, os discos estão mortos. O que manda na música hoje é a gravação de singles, o que é bom para o artista. Podemos testar novas canções uma a uma.
JB: A música digital está substituindo o CD? E o que você acha da retomada do vinil?
Ian: A música digital já tomou o lugar do CD, isso é irreversível. O que manda agora é a política dos downloads. Quanto ao vinil, é algo que não morrerá jamais, que está cada vez mais em alta.
JB: O que você conhece efetivamente sobre a música brasileira?
Ian: Ouço sempre Astrud Gilberto, Gilberto Gil, Sepultura e o CSS. Eles são o que conheço da sua música.
* Especial para o Jornal do Brasil.