Bolívar Torres, Jornal do Brasil
RIO - Há três anos, a poeta Alice Sant' Anna criou um blog, para não deixar nada na gaveta . A moça, então com 17 anos, não tinha grandes pretensões. Só não queria deixar seus versos mofando em casa. Mesmo assim, o temperamento poético singular, muito acima da média, foi aos poucos sendo revelado ao público. Hoje com 20 anos, a artista precoce tem o talento confirmado com a publicação de seu primeiro livro, pela editora 7Letras. A obra, intitulada Dobradura, deve sair em agosto - basicamente com poemas já postados na internet.
Criei o blog mais para me organizar do que para me expor - diz Alice ao Jornal do Brasil, numa entrevista realizada na praça Santos Dumont, na Gávea, bairro onde sempre viveu. Tinha vontade de publicar cedo, mas não sou muito ligada em internet.
Debaixo do sol, entre as árvores, a poeta se ajeita num banco da praça, e fala sobre seus primeiros passos na escrita, sobre sua rotina, seu universo. Uma das influências musicais de Alice, que estudou piano clássico na infância e é tecladista e eventual cantora da banda Os Subterrâneos, aparece estampada na camiseta vermelho-clara que vestiu para a entrevista: o grupo nova-iorquino Velvet Underground.
Entre as preferências literárias, um nome flutua acima dos demais: o da saudosa Ana Cristina Cesar, a Ana C., influência para - provavelmente - quatro entre cinco poetas da nova geração, e inspiração máxima de Alice.
Foi a leitura dos poemas de Ana C. que me fizeram gostar de literatura. Escrevo por causa dela, mas também gosto de Emily Dickinson diz a moça, que além de música e escritora, está no sexto semestre da faculdade de jornalismo e estagia na editora Alfaguara. Elas me influenciaram, mas minha maneira de escrever é simples. Não consigo fazer coisas mais complicadas. Tudo que escrevo sai livre, sem rimas. É como um suspiro.
Introspecção e doçura
A simplicidade é mesmo a marca da autora. Em um território selvagem como a internet, onde se costuma gritar para ser visto, sua poesia sussurra, fugindo de truques vazios ou efeitos apelativos de linguagem. O verso introspecivo, doce e intimista, dialoga com as durezas do fluxo urbano, essa estranha e acelerada respiração.
O canto de Alice é essencialmente isso: a vertigem de ser jovem na cidade grande. Aqui, tudo é efêmero, passageiro. Tudo é desfile rápido de sensações. As imagens se sucedem em tom monocórdico, e a emoção surge de repente, na figura de uma fruta, de um relógio, de um quadro não emoldurado, ou uma recordação súbita da infância. Ao fim, fica a angústia discreta de um tempo que voa. E que ninguém segura.
Eu acho a cidade uma coisa incrível diz a poeta, apontando ao redor. A maneira como ela respira, como se renova... Por exemplo, essa luz que vemos agora. Daqui a cinco minutos, não estará mais aqui.
Nesse pedaço iluminado da Gávea, Alice revela sua cidade. Um espaço de acumulação e eco, um gigantesco sonho coletivo, do qual formamos todos um pedaço.
O que me fascina na cidade é essa possibilidade de troca. Nós observamos, mas também somos observados acrescenta.
Ela aponta novamente ao redor, e com razão: ao passar pela praça, as pessoas observam a entrevista.
É como um filme, do qual você também participa. As vidas se misturam, vira uma bagunça. E eu adoro essa bagunça!
Não por acaso, a poeta costuma escrever no ônibus, bloco e caneta na mão, enquanto circula pela cidade. Entre um ponto e outro, o transporte público vira a síntese do movimento constante, das múltiplas possibilidades.
Ônibus é um barato exalta. Tudo pode acontecer. Num dia você pega o carro errado e faz um trajeto maluco, no outro pega o carro certo, mas salta no ponto errado, num lugar que não conhece. E ainda tem as passageiros entrando e saltando, cada um com seu caminho. Para mim, é uma metáfora da vida.
Há diversas estradas na obra de Alice. E caminhos a percorrer. Nas entrelinhas, vibram os dilemas da juventude: instabilidade, inocência, desordem mas também ternura, esperança e aprendizado. Versos feitos de ruas, carros, e muitas luzes, e muito som. Alice é uma poeta em formação.