Bolívar Torres, Jornal do Brasil
RIO - Passamos da metade do cinquentésimo ano da bossa nova. Os meses voaram e, até agora, 2008 não viu nenhuma publicação relevante sobre o movimento.
Em abril, Samba falado, uma reunião de crônicas inéditas de Vinicius, prometia um tesouro com registros revolucionários sobre o período os textos apenas confirmaram apenas a prosa agradável e o talento de relações públicas do Poetinha.
Com o lançamento de Eu & a bossa, uma história da bossa nova, áudio-book de Carlos Lyra, um dos nomes essenciais do movimento, ficou a esperança de que finalmente surgisse uma reflexão à altura da data, acrescentando alguma idéia nova a tudo que foi dito e redito nesses últimos 50 verões em Ipanema.
Mas o resultado é uma decepção salva apenas pelos dois discos que acompanham o livro. As 48 composições de Lyra trazem um resumo da rica carreira do artista, e dizem mais sobre o movimento do que tudo que foi publicado esse ano.
Bossa elitizada
Quem ansiava uma revisão profunda do período tem que se contentar com uma espécie de anedotário de Carlos Lyra , com algumas curiosas histórias escritas em tom de crônica (é material para uma revista no estilo Seleções, no máximo). Em certos momentos, o Parceirinho (como era chamado por Vinicius) flerta com temas realmente interessantes.
Discute, por exemplo, qual a data correta do nascimento da bossa, só que não se aprofunda no assunto. Também pouco desenvolve a idéia de que ela não seria um movimento, mas sim um surto de cultura musical , surgido sem cálculos ou planejamentos. São polêmicas que Lyra lança no ar, desistindo de abraçá-las. Já na categoria Revelações , um ou outro destaque: a bossa não nasceu na casa de Nara e sim na de Bené Nunes e a apresentação no Carnegie Hall em 1962 não foi apenas triunfo, mas também caos... Nada que valha uma manchete.
Nos últimos anos, o compositor tem tomado posições fortes quanto à natureza elitista da bossa nova. E é difícil entender por que ele reserva tão pouco espaço a essa discussão em seu livro. A bossa nova já foi vista como um símbolo da falta de comunicação, de elo da classe média com as classes populares. Porém, não se deve esquecer a atuação de Lyra na recuperação das raízes da MPB, dos anos 60 em diante.
A questão, como se vê, é mais complexa do que se pensa, e as míseras sete linhas dedicadas pelo compositor não são, de fato, suficientes para jogar luz na questão.
Rico em fotos, pobre em idéias. Assim é Eu & a bossa, uma história da bossa nova. Através das páginas, conhecemos o sítio, os cachorros, e até os gansos de Carlos Lyra. O fato é que 2008 ainda espera um livro realmente marcante sobre a bossa nova. Restam menos de seis meses.