Crítica - Turma da Mônica: Laços: Avante, Vingadoles!

**** - Muito bom

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Somando 60 anos de quadrinhos em sua carreira de contador de histórias, a ser consagrada pela indústria do cinema com um troféu honorário no 47º Festival de Gramado (16 a 24 de agosto), Maurício de Sousa faz no lúdico “Turma da Mônica: Laços” uma participação digna das intervenções hitchcockianas do saudoso Stan Lee (1922-2018) nas sagas da Marvel. Sua aparição no filmaço para crianças e criançonas que estreia nesta quinta-feira é rapidinha, só que inesquecível: um jornaleiro que vende sonhos para leitores de dentes de leite. Leitores como nós todos, que fomos alfabetizados por sua arte, na forma de personagens seminais como o Louco, que garante a Rodrigo Santoro o melhor desempenho de sua carreira, numa pantomima à moda Marcel Marceau, com um palavreado surrealista que parece derramado da prosa de Campos de Carvalho. Releitura da graphic novel homônima de Lu e Vitor Cafaggi, este momento Charles Perrault do diretor Daniel Rezende é estrelado pelo quarteto Giulia Benite (Mônica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Laura Rauseo (Magali) e (o achado) Gabriel Moreira (Cascão) e equacionado pela (in)variável da lealdade. Singelo é a palavra que melhor define este mergulho do nosso audiovisual na argamassa das HQs.

Realizador de “Bingo – O Rei das Manhãs” (2017), Rezende faz aqui uma evocação dos códigos da “Sessão da Tarde”, indo do cult “Conta comigo”, de Rob Reiner, ao grapette “Aventuras com Tio Maneco”, de Flávio Migliaccio, apoiado na sobriedade de cores do fotógrafo Azul Serra. Atrizes como Fafá Rennó, no papel da Dona Cebola, e Monica Iozzi, na pele de D. Luísa, a mãe de Mônica, têm atuações impecáveis numa trama calcada em andanças. No roteiro de Thiago Dottori, Mônica & Cia. saem de casa para caçar o cachorro Floquinho, que foi raptado de sua casinha, no lar da Sra. e do Sr. Cebola (Fafá e Paulo Vilhena, inspiradíssimo). O caminho é cheio de perigos, de água corrente (para o terror do Cascão) e da sinestesia das matas virgens, todos traduzidos pela fotografia de Azul Serra com cores realistas, sem o peso das tintas das HQs.

Há momentos de gargalhada rasgada, como na sequência em que o vilão, o Homem do Saco, vivido por Ravel Cabral, exulta sua breguice (e sua humanidade) ao som de Fagner. E tem riso frouxo no solo de Santoro como O Louco, que é o momento de experimentação mais pura de “Laços”. Mas a comédia é só uma das especiarias de um quitute assado na temperatura dos romances geracionais. Na tela grande, o que Rezende nos dá é um buddy movie com todas as ilusões e fabulações da infância. É um longa que usa a floresta como o escritor Francisco Marins (o seminal autor de “O mistério dos morros dourados”) a utilizava: como um espaço transcendente de rito de passagem do medo à vitória. Passagem esta inerente a toda amizade que nasce tumulto e se inscreve na pedra... a pedra da eternidade, aquela em que Maurício de Sousa esculpiu seu legado. Sua obra ganha vida com o um espetáculo com sabor de filme dos Trapalhões, focando-se na perseverança e no afeto dos personagens. A montagem assinada por Sabrina Wilkins e Marcelo Junqueira tem um arejamento mais próximo dos “filmes para criança” dos anos 1970 (como os de Didi ou de Tio Maneco) que da histeria do cinema pop dos anos 2010. Sua placidez abre portas para a alma de cada um dos integrantes da Turma criada por Maurício, revelando doçuras que fariam Magali salivar.